3. No reino do humano / In the realm of the human

Primeira Parte

Diário: amor

– Maria, e se começássemos esta história pegando no meu diário? Pode valer a pena, o que pensas?

A Maria continua a dormir, ou a relaxar, como tão bem faz ao longo do dia. As minhas palavras cortantes parecem não interromper o seu deleite. Mas a sua abertura de espírito aceita a ansiosa interrupção.

– Não sei. – responde ela – Não sei quem irá acreditar em mim quando me perguntas o que penso sobre o assunto. 

Eu penso, mas penso duma forma que não é certamente muito familiar aos humanos. Para além de que nem sequer sei muito bem o que queres dizer com pensar, o que é isso de pensar? Para que serve? Mata a fome?

 Sou um cão, dizem vocês, não te esqueças disso. Podes cair na tentação de fazer as pessoas acreditar que és assim para o excêntrico, ou até para o maluco, por achares ou insinuares que um cão pode pensar. 

Seria engraçado escrever a história dos cães desconhecidos da humanidade, aqueles que viveram na sombra de muitos virtuosos, aqueles que faziam companhia a escritores, pintores, profetas e até trolhas, porque apesar de toda a teoria é sempre preciso alguém para pôr as mãos na massa. 

É preciso começar por algum lado não é?

– Certo. O que é o amor? Sentes amor? – saem-me estas palavras da boca sem que controle muito o que estou a dizer.

– Amor?

-Sim. Amor.

– Tem um som engraçado, faz-me coceguinhas nos ouvidos, gosto da sonoridade. Amor… amor… aaaammmmoooorrr.

Lentamente a Maria parece escorregar para um transe, o seu corpo emana tranquilidade, como de resto, em 99% do seu dia.

Noite. – começa ela a falar. – Sinto o corpo solto e relaxado, sinto-o inteiramente, já não sei o que é ser paraplégica, não sinto cansaço no corpo, ou a senti-lo, não me incomoda.

Vejo as estrelas no hemisfério e vejo a via láctea definida no céu, completamente desenhada até ao infinito, como se estivesse a tocar nos meus pelos.

Vocês humanos, nas noites de Verão podiam dormir de janela aberta, deveria-se, pelo menos quem vive em plena Natureza. Deixar a noite entrar.

Ela parece parar. E observa o mundo em seu redor.

Escutam-se os sons da noite, a coruja ao longe, a matilha de cães a uivar, ou seriam lobos? O vento a passar levemente entre as folhas dos carvalhos. Estas árvores tremendas,  quando damos conta da sua presença, inevitavelmente os seus aromas de madeira e terra inundam o nosso espírito.

– É chegado o momento – diz ela. – em que não sei  se estou acordada ou a dormir. O acordar confunde-se com o sonho. Coisas acontecem. E escutas as vozes da Natureza, algumas com sentido de humor. – A Maria observa uma flor, um narciso amarelo, e permanece uns segundos em silêncio. E de repente.

– Apesar de tudo, amo. Amo-te. Soa piroso? – Grita ela no seu estilo desengonçado.

Não soaria piroso se não tivesse escutado estas palavras da Maria a discutir com o narciso amarelo.

– Porque me amas? O que é o amor? – responde o narciso.

Após um longo silêncio Maria responde.

– Não sei… achei que era amor o que senti por ti e apeteceu-me partilhar.

– Interessante, muito interessante. – responde o narciso.

As duas ficaram em silêncio durante um momento. Pareciam dar conta da existência uma da outra. Observavam-se mutuamente e delicadamente, como se cada gesto fosse um novo gesto.

Eu fico em silêncio e à espera que o eloquente diálogo prossiga… mas não prosseguiu.

E ficamos ali os três quietos, no deleite do silêncio, acompanhados pelas sinfonias dum melro em dó maior e pelas batidas sincopadas dum pica pau.

– Amor. – interrompe a Maria. Parece contemplativa. 

– Esse mito, não é? Apenas assumido por poucos de vocês. Porquê? Porquê a dificuldade em assumir a vossa condição natural de amor?

Haverá algum dever quando há amor?

Quando há amor há uma partilha silenciosa do carinho, das ansiedades, das alegrias, dos desgostos. Não se julga.

Bens materiais, problemas de que ordem for, não exercem domínio sobre nada.

Um coração desfeito exige, um corpo cansado exige, um corpo cansado reclama direitos e deveres e cria leis.

No amor o dever e os direitos não existem.

A ternura é um mito para muitos,  é um perigo para esses cansaços e vazios do corpo, do coração e da imaginação. A ternura renova a vida.

E a afeição é um jogo perigoso onde o medo de descobrir certas verdades está escondido sob a capa da ambição.

Sem afeição não há moralidade, não há comportamento ético, não há nada.

É fácil pôr de lado o óbvio do amor e é muito mais difícil construir esforços, ambições, certezas, seguranças, esperanças e fé.

O amor é uma canção de inocência. 

O amor não sabe que sabe, tampouco sabe o que sabe, e no entanto, ao que parece, é bastante determinado e coerente em qualquer coisa que faça. – assim parece terminar o monólogo da Maria.

O seu corpo, relaxado, assistindo ao movimento nocturno, ao movimento da lua, das estrelas e dos hemisférios, estava vivo e simples… ali presente apenas.

E surgiu na minha mente esta corrente de palavras.

Uma canção de inocência.

No amor

Na inocência

Deste silêncio

Sou 

O que por mim mesmo

Não consigo imaginar.

Se tento imaginar,

Perco-o.

E sou expulso 

Do centro do Ser.

E devoro o mundo,

Negando a minha verdadeira

Natureza.

A verdadeira Natureza é quieta…

Uma corrente viva de amor,

Um amor que não nasce

Um amor que não morre.

E as lâminas de erva

São a realidade intemporal

Das paisagens aromáticas.

A corrente do mundo,

A corrente 

Que eu alimento 

E onde me destruo

É a fantasia do viver.

A realidade da morte.

Alguns dizem 

Que o amor é tudo 

O que necessitamos.

No amor de verdade

Não existem necessidades.

A necessidades são errantes,

Impedem o corpo de Ser e viver.

Amor. Amor. Amor.

Florescendo.

A flor virá,

Ela já está aqui

Em inocência.



Part one

Diary: love

– Maria, what if we started this story by taking my diary? It might be worth of it, what do you think?

Maria continues to sleep, or to relax, as she does so well throughout the day. 

My sharp words don’t seem to interrupt her delight but her openness accepts my anxious interruption.

– I do not know. – she replies – I don’t know who will believe me when you ask me what I think about any subject.

I think but I think in a way that is certainly not very familiar to humans. 

Besides that I don’t even know very well what you mean by thinking, what is thinking? What is it for? Does it kill hunger?

 I’m a dog, so you say, don’t forget that. You may fall into the temptation to make people believe that you are eccentric or even mad for thinking or implying that a dog can think.

It would be funny to write the story of the unknown dogs of mankind, those who lived in the shadow of many virtuosos, those who kept company with writers, painters, prophets and even janitors because despite all the theory we still need someone to get their hands dirty. You have to start somewhere, don’t you?

– Right. I have a question. A simple one. What is love? Do you feel love? – these words came out of my mouth without control.

– Love?

-Yes. Love.

– It has a funny sound, it tickles my ears, I like the sound. Love… love… llllooooovveeeeeeeeee!.

Slowly Maria slips into a trance, her body emanates tranquility like always.

– It is Night. – she begins to speak. – I feel the body loose and relaxed, I feel it entirely, I don’t know what it is to be paraplegic anymore. I don’t feel tiredness in the body, it doesn’t bother me anymore.

I see the stars in the hemisphere and I see the milky way defined in the sky, completely drawn to infinity, as if it were touching my hair.

You humans, during summer nights, could sleep with an open window. 

You should go to Nature. Let the night be inside you.

She seems to stop and watch the world around her. 

Then she continues.

– Do you hear the sounds of the night, the owl in the distance, the pack of dogs howling? or are they wolves? 

Do you hear the wind passing slightly between the leaves of the oaks?

Tremendous trees. When we realize their presence, inevitably their aromas of wood and earth flood into our spirit. They are our spirit. And then it starts. 

The time has come – she says. – when I don’t know if I’m awake or asleep. 

Things happen. Listen to the voices of Nature, some have a sense of humor.

She stops. Maria watches a flower, a yellow narcissus and remains silent for a few seconds. Then uddenly.

– Despite everything, I love you. I love you. Sounds corny? – she shouts in her clumsy style.

It wouldn’t have sounded silly if I hadn’t heard Maria arguing with the narcissus.

– Why do you love me? What is love? – responds the narcissus.

After a long silence Maria responds.

– I don’t know … I thought it was love what I felt for you and I wanted to share it.

– Interesting, very interesting. – responds the narcissus.

The two were silent for a moment.

They seemed to be aware of each other’s existence. They observed each other gently as if each gesture was a new gesture.

I remained silent and waiting for the eloquent dialogue to continue … but it hasn’t.

The three of us stayed there quietly, delighted by the silence, accompanied by the symphonies of a blackbird in C major and by the syncopated beats of the woodpecker.

– Love. interrupts Maria. She looks contemplative.

– That myth, isn’t it? Only a few of you feel it. But why? Why the difficulty in assuming your natural condition of love? Is there any duty when there is love?

When there is love there is a silent sharing of affection, anxieties, joys.

There is no judgment.

Material goods, problems of any kind, do not rule over anything.

A broken heart demands, a tired body demands, a tired body demands rights and duties and creates laws.

In love, duty and rights do not exist.

Tenderness is a myth for many, it is dangerous to these tired bodies, dangerous to the emptiness of the body, heart and imagination. Tenderness renews life.

Affection is a dangerous game where the fear of discovering certain truths is hidden under the cover of ambition.

Without affection there is no morality, there is no ethical behavior, there is nothing.

It is easy to put aside the obvious of love and it is much more difficult to build efforts, ambitions, certainties, securities, hopes and faith.

Love is a song of innocence.

Love does not know that it knows, nor does it know what it knows, and yet, it seems, it is quite determined and consistent in whatever it does. – and so Maria’s monologue ended.

Her relaxed body watching the night movement, the movement of the moon, the stars and the hemispheres, was alive and simple… only present. 

This stream of words came to my mind.

A song of innocence.

In love

In the  innocence

Of this silence

I am

What by myself

I can not imagine.

If I try to imagine,

I lose it.

And I’m expelled

From the center of Being.

Then I devour the world,

Denying my true Nature.

True nature is quiet …

A living stream of love,

A love that is not born

A love that doesn’t die.

The blades of grass

They are the a timeless reality

They are aromatic landscapes.

The world stream,

The stream that i feed

The stream where I destroy myself

Is the fantasy of living.

The reality of death.

Some say

That love is everything

That we need.

In true love

There are no needs.

Needs are errant,

They prevent the body from Being and living.

Love. Love. Love.

Blooming.

The flower will come,

She’s already here

In innocence.

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