4. Diário: Fragilidade / Diary: being fragil

Algures em setembro de 2012

Que frágil sou. Penso e sinto, é certo.

Imagino o meu mundo sob controlo. 

Imagino que sim e gosto de imaginar que sim.

E quando menos espero ele cai por terra num ápice, esfuma-se sem que eu possa fazer nada acerca disso, apenas testemunhar o seu declínio.

Foi isso que aconteceu ontem. Há coisas que nos atingem e o seu eco parece perdurar por vários dias, até ser resolvido.

Deve ser uma espécie de chamamento. Sei lá.

O meu mundo sob controlo, foi-se. Como se de facto nunca tivesse sequer existido, e  esse mundo que eu tanto preservava na total crença de que controlo o que sinto e vejo e manuseio, terminou.

E tudo isto por causa de um cão.

Se calhar muita gente consideraria a minha reacção como exagerada ou dramática. Não sei muito disso. Sei que me preocupo, não só e apenas pelo meu estado mas também sinto responsabilidade por todas as coisas vivas.

Ter crenças parece ser o estado natural da minha existência como humano. Acho que sou humano. 

Eu não sei muito de psicologia mas sei que desde que mudei a minha vida para mais perto da Natureza lentamente o homem cultural foi-se evaporando, como se eu não estivesse alinhado com o meio em que vivia. 

Resisti, ainda que inconscientemente a esta mudança. 

Há hábitos difíceis de mudar, mas de vez em quando a própria vida encarrega-se de transformar  algumas coisas em nós. É cliché mas é bem verdade.

Bendito seja este cão. Melhor dizendo, a Maria.

A Maria é um doce. Por isso quisemos dar o nome de Maria, ela é um pequeno milagre.

Eu não esperava que uma simples decisão, tomada ela pelo coração ou não, isso agora não interessa, de facto já não interessa para nada… não esperava que esta decisão fosse despoletar um tal desmoronamento de emoções, a transformação  daquilo que eu considerava ser autêntico e sagrado em mim, aquilo que me definia como pessoa.

A identidade foi posta em causa. De repente é-se como o ar.

Claro que essa destruição, se quiser colocar as coisas no seu correcto e adequado nome, é acompanhado por uma depuração corporal e física de água salgada, água a que demos o nome de lágrimas. Muito pomposo.

O mar no canto do olho. 

É curioso e engraçado pensar assim.

E o corpo em convulsões, apertos e choro. Sim. 

Uma agonia tremenda, uma ansiedade tremenda.

Chorar é uma pequena morte. É sim. 

Toda a gente que chora e tem a coragem para chorar descobre isso. Se calhar devia-se chorar mais.

Mas ontem o meu choro continha o perfume da derrota, de ter percebido a ilusão a que me acometera ao longo do tempo sem sequer ter dado conta disso. É triste. É trágico. É hilariante ao mesmo tempo. É egoista.

Chorar por querer salvar a vida de um cão que nem há dois dias fazia parte da minha vida, do meu quotidiano, dos meus afazeres e delírios, chorar por um animal e pela decisão que teria, melhor dizendo, teríamos eu e a minha companheira de tomar, chorar por uma simples e frágil e vulnerável decisão, tendo como pano de fundo a incerteza, chorar naquele momento e por aquele cão, foi das coisas mais belas que ocorreram na minha vida.

Ali estava ela, a Maria. Não se segurava em pé, o seu corpo frágil que mais parecia feito de papel, contorcia, flácido.

Contudo, e difícil senão impossível de imaginar o que ia na cabeça da Maria, ela emanava um total desapego pela sua condição. Ela tentava levantar-se vezes sem conta.

Esta energia de querer, de avançar, de progredir, este impeto, instintivo ou não, tomava conta dela. Era ela, ela era essa energia de vida a querer manifestar-se e evoluir. 

Naqueles instantes percebi a minha vulnerabilidade, a vulnerabilidade do meu corpo humano, do meu pensamento, das minhas emoções, da dependência que eu tinha de factores que não controlava. 

Vulnerável na ilusão do próprio conceito de controlo, da total abertura que implica estar vivo e fazer escolhas, sejam elas certas ou erradas, equivocadas ou menos equivocadas.

Ver a Maria a ser vida e a manifestar vida naquele momento foi de um impacto tremendo. Havia força e dignidade naquela motivação de se querer levantar. 

Foi como se a vida quisesse manifestar o seu potencial, a sua criatividade. A Maria era isso tudo. E euera  um espectro ao lado dela, senti-me pequeno.

Mas por alguma razão, senti uma força por detrás dessa minha fragilidade, a Mariana também sentia o mesmo, parecia que estávamos em sintonia.

Essa fragilidade/força impeliu-nos a tomar a decisão que tinha de ser tomada. 

Eu estava determinado. Ela também.

E a Maria era a própria motivação encarnada sem muito esforço, era a prova viva. Que mais era preciso?

Paralelamente não fazia ideia nenhuma e sentia-me completamente inseguro.

Estámos inseguros. O que irá acontecer?

Ao mesmo tempo não nos preocupamos, estamos inseguros mas isso não quer dizer que não tenha de agir.

A insegurança não é motivo para estar quieto.

Move-se mesmo sentindo inseguro.

Não existia medo dentro desse sentimento frágil e vulnerável. Nem sequer sentia coragem. 

A decisão pura e simplesmente pendia entre escolher a vida ou a morte da Maria.

Para além disso suspeitávamos que a coisa não iria ser tão fácil assim. 

Não abundamos em dinheiro, vivemos com o suficiente, ainda que a balança tenda mais para o lado do menos. Mesmo assim vamos tendo sorte. 

Por muito que nos habituemos a contar trocos todos os dias, a administrar e a gerir as nossas coisas, enfim, a estrutura que rege a nossa vida de certa maneira, mais parece que chegamos a uma normalidade banal onde deixamos de questionar a nossa forma de vida.

O normal do estado de ser português ou da minha geração pelo menos, tem sido essa de viver no limite e contar muitas vezes os trocos. 

A vida estando mais cara, ainda que exista mais oferta e escolha do que nunca, mais parece que nos sentimos cada vez mais drenados, cansados, sem realmente termos acumulado seja o que for. Parece que a vida que levamos nos drena a energia e nos deixa sem nada.

Quando me deparo com este cenário de salvar a vida da Maria, que eu já nem considero ser um cão, mas um ser com individualidade e personalidade, não tenho como evitar complicar ainda mais a minha vida. 

A nossa vida a dois. Felizmente eu e a Mariana nos entendemos, um diz mata e o outro diz esfola.

A vida por vezes encaminha-nos para certas encruzilhadas. Somos aquilo a que chamam de empreendedores, coisa muito em voga ao que parece, por muito que esta palavra e conceito me cause cócegas na nuca, me cause comichão debaixo dos braços, nas pernas, no dedo mindinho do pé esquerdo, em todo o lado diga-se. Parece urticária.

Estar constantemente a lutar, o que parece ser a rotina de todos nós nos dias que correm, a querer fazer as coisas acontecer, estar a lutar por umas poucas coroas e ao mesmo tempo ter de tomar a decisão de escolher a vida ou a morte da Marial, a clareza de espírito no momento é pouca, não é nenhuma diga-se.

Ver o dinheiro e  interpretar o dinheiro, cada qual o vê no seu espelho, na sua forma de pensar e justificar a sua existência. 

Ele no fundo não tem valor intrínseco nenhum, é apenas papel, a não ser o valor que queremos atribuir ou somos forçados a atribuir dadas as circunstâncias de vida de cada um. Parece que as circunstâncias da vida de cada um limita as interpretações e significado que damos ao dinheiro. Alguém que viva num bairro social tem uma relação diferente com o dinheiro do que uma pessoa que viva numa mansão, isso é óbvio. Se calhar nem é tanto o dinheiro, mas o significado adequado que se dá a ele. Posso ser pobre e ter uma vida tremendamente rica e abundante. Ou ser rico e ter vivido em vão. 

Lembro-me duma história.

Uma organização humanitária tinha percebido a necessidade daquela comunidade em melhorar a produtividade da mão de obra. Eles tinham a tradição de fazer tecelagem, fossem tapetes, roupas, etc.

Fazer um simples tapete demorava uma semana, a trabalhar oito horas diárias, com afinco.

A ideia era fazer mais em menos tempo, aumentar a produção, afinal esse é o significado do progresso, do rendimento e da eficácia. E do lucro.

Essa organização angariou os fundos e conseguiu adquirir o equipamento desejado. 

Daí a uns meses voltariam para avaliar como as coisas estavam a decorrer naquela comunidade e adaptar se fosse preciso.

Passaram-se esses meses.

Havia uma senhora idosa que era uma espécie de matriarca, com bastante conhecimento sobre todo o processo da tecelagem e era ela que mantinha aquela tradição viva.

Questionada sobre o novo equipamento, de como é que ela se estava a entender com ele, a senhora responde:

  • Muito bem. Consigo fazer muito mais e em menos tempo.
  • Óptimo! Quantos tapetes consegue fazer agora por semana?
  • Os mesmos!
  • Os mesmos?! Mas…?
  • Sim, a diferença é que antes demorava uma semana e agora demoro um dia. Assim tenho os restantes seis dias para estar com os amigos e com a família, dançar e trabalhar na horta.

A produtividade faz girar o mundo e todas as suas decisões, fruto dos desejos ou medos de cada um. Ou do desejo de se sentir importante. 

A economia é baseada em desejos, as políticas são baseadas em desejos, em desejos de preencher o vazio que sentimos cá dentro. Nenhum objecto material, fama, poder, prestigio, irá apagar esse vazio. Este vazio acaba com os recursos do planeta isso sim. Não tenho nada contra este comportamento, cada um sabe de si. Há quem diga que cada um tem o seu karma ou destino. Mas eu não aceito muito bem essa história do destino. Também há a inteligência e é preciso fazer uso dela. Não somos elementos passivos nesta equação.

A Maria é tudo menos passiva. O corpo dela é uma compulsão de energia a querer viver custe o que custar.

Porque fizemos do dinheiro um problema?

Ele é em parte uma expressão do medo e da insegurança com que somos criados e educados, a expressão dessa procura incessante de prazer, da criação de identidade nesse prazer, do bem estar. Em parte é isso. Mas não é tudo.

O dinheiro traz poder, toda a gente o sabe e o deseja, é simples e directo, pragmático, ou é ou não é, não tem meio termo, por muito que se queira imaginar um meio termo.

 É nisso que os especuladores são exímios. E criar expectativas, o que são abstrações. 

E com isso a má gestão dos recursos do planeta.

Nem só do planeta, os simples recursos do nosso dia a dia, nos nossos lares.

Uma mente simples, que não é simplória, uma mente pacífica é tudo o que o ser humano precisa. Estar em paz.

E com isso os recursos e a extração destes, seriam muito poucos de certeza.

A simplicidade faz com que a presença dum animal, duma árvore, duma outra pessoa, seja o que for, seja muito intensa. Esse estado de relaxamento simples é tremendamente intenso. Nunca senti nada assim, nem mesmo quando mergulhava em leituras de cariz filosófico e abstrato.

Um livro de filosofia para mim, em comparação com a presença duma árvore, nunca irá suplantar o valor desta. 

A Natureza faz-me sentir perto de tudo, é como se vivesse dentro duma grande comunidade. 

A comunidade não começa apenas na família, também se expande nos amigos e segue como uma onda por aí fora. 

E qualquer decisão que se tome é quase sempre em função de ter esta comunidade presente ou não.

Os desejos pessoais tornam-se quase até irrelevantes.

Mas mais do que todas as considerações que eu quisesse tomar ou avaliar, o simples facto de ter de escolher a morte da Marial só porque não tinha o dinheiro necessário para escolher entre ser operada ou não, fazia com que a minha condição humana, a minha educação e as minhas pseudo observações do que significa ser humano, as crenças mais queridas, os debates que tinha tido ao longo da minha existência sobre o que é certo ou errado, tudo isso valia zero. Naquele momento valia realmente zero. 

Foi como se eu não pudesse ter escolha.

Agir em inteligência é não ter escolha. 

Não há escolha, há espontaneidade, naturalidade.

Claro que em momentos tensos pouca clareza de espírito existe. As opções surgem quando a tormenta passa. 

Aí tudo é fácil de se fazer e até projectar.

A vida é grande o suficiente para que tudo possa ser possível, desde que se dê o primeiro passo. Parece lamechas mas é a verdade. Ao mesmo tempo o impacto da morte. 

A escolha da morte e o que isso significava. 

A distinção entre a vida e a morte é muito tênue. 

As duas estão completamente entrelaçadas e dependentes entre si. Há o momento em que a morte parece significar vida e outros em que a vida parece significar morte. 

Um universo relativo portanto. 

Um universo em constante fluxo e mutação em que o antes de pouco ou nada serve para o depois e onde um olhar vivo e atento se emana e encarna e ri a todo o momento.

A Natureza parece rir todo o tempo.

Aquelas lágrimas significavam tudo isto e muito mais. 

Esse muito mais viria com o tempo.

Esse muito mais era o caminho a seguir.

Esse muito mais para mim equivalia a: 

  • primeiro, não ter certezas de nada; 
  • segundo, em não saber nada; 
  • terceiro, em nunca ter sabido nada sequer; 
  • quarto, ter única e exclusivamente vivido numa ilusão, ou em várias ilusões; 
  • quinto, enfrentar e viver no nada, no não sei.

Mas como por algum motivo ser teimoso tem as suas vantagens, ou num certo grau, a tenacidade, ou seja, a distinção entre os dois é muito tênue, e como eu e a minha companheira temos essa característica, de sermos assim para o obstinados, a decisão que tomamos foi como seria óbvio, escolher entre uma operação cirúrgica que balançava entre os 50 por cento de sucesso ou 100% por cento de fracasso. 

Há alturas em que devemos confiar naquilo que a vida se nos oferece, é como ir lendo um livro, não só lendo mas escrevendo ao mesmo tempo.

Escolher esbanjar uma pequena fortuna na Maria, que nunca tínhamos visto na vida pareceu-nos a coisa certa de fazer e foi simultaneamente a escolha, não só entre a vida e a morte dela, mas também a vida e a morte de nós os dois. 

Estavamos acabados, cansados, derrotados. 

Esta escolha continha o perfume dum novo começo. 

Os novos começos batem à porta todos os dias, a todo o momento, a toda a respiração, em cada olhar, em cada contacto, em cada esquina.

De coração aberto, frágeis e vulneráveis, com medo de nos expormos, com medo de explorar as nossas incompetências e desleixos, com medo das nossas incertezas, lá fomos para a frente.E assim foi. 

A destruição do eu é a essência da beleza.



Sometime around september 2012

How fragile I am. I think and feel, that’s for sure.

I imagine my world under control.

I imagine so and I like to imagine so.

And when I least expect it, it falls to the ground suddenly, it vanishes without me being able to do anything about it except just witness its decline.

That was what happened yesterday. There are things that affect us and their echo seems to last for several days until it is resolved.

It must have been a kind of wake up call. I don’t know.

My world under control is gone. As if in fact never even existed.

A world that I so preserved in the total belief that I control it, that what I feel and see and handle… is now over.

And all of this because of a dog.

Perhaps many people would consider my reaction to be exaggerated or dramatic.

I don’t know much about it. I know that I am concerned, not only for my state of mind but I also feel responsibility for all living things.

Having beliefs seems to be the natural state of my existence as a human. 

I think I’m a human.

I don’t know much about psychology but I know that since I moved my life closer to Nature, slowly the cultural man has evaporated, as if I were not aligned with the environment in which I lived.

I resisted albeit unconsciously, this change.

There are habits that are difficult to change but from time to time life itself takes care of transforming us. It is cliché but it is very true.

Blessed be this dog. In other words, Maria.

Maria is sweet. That is why we wanted to give the name Maria, she is a small miracle.

I didn’t expect that a simple decision, whether made by heart or not, that doesn’t matter now, in fact it doesn’t matter at all… I didn’t expect this decision to trigger such a collapse of emotions, the transformation of what I considered to be authentic and sacred in me, what defined me as a person.

My identity was called into question. Suddenly you are like air.

Of course, this destruction, if you want to put things in their correct and proper name, is accompanied by a physical purification of salt water, water that we call tears. Very pompous. The sea in the corner of an eye.

It is curious and funny to think so.

The body in convulsions, squeezing and crying. Yes.

Tremendous agony, tremendous anxiety.

Crying is a small death. Yes it is.

Everyone who cries and has the courage to cry discovers this. 

Maybe we should cry more. Everyday at 5 p.m. at the end of the day.

Yesterday my cry contained the scent of defeat, of having realized the illusion that had affected me over time without even realizing it. 

It’s sad. It’s tragic. It’s hilarious at the same time. It’s selfish.

Crying for wanting to save the life of a dog that hadn’t been part of my life, my daily life, crying for an animal and the decision I would have, better said, would have me and my wife. Crying for a simple and fragile and vulnerable decision, against the background of uncertainty, crying at that moment and for that dog, was one of the most beautiful things that happened in my life.

There she was, Maria. Se couldn’t stand upright, her fragile body looked more like paper, writhed, flabby.

However and if not impossible to imagine what was going on on Maria’s mind, she emanated total detachment from her condition. 

She tried to get up again and again. Again and again.

Again and again, never stoping.

This energy of wanting, of advancing, of progressing, this impetus, instinctive or not, took hold of her. 

She was that energy of life wanting to manifest and evolve.

In those moments, I realized my vulnerability, the vulnerability of my human body, of my thinking, of my emotions, of my dependence on factors that I did not control.

I was vulnerable in the illusion of control.  Vulnerable to the total openness that implies being alive and making choices, whether they are right or wrong, wrong or less wrong.

Seeing Maria being life and manifesting life at that moment had a tremendous impact. There was a strength and dignity in that motivation of her.

It was as if life wanted to manifest its potential, its creativity. 

Maria was all that. I felt very small. Smaller than an atom.

But for some reason, I felt a force behind my fragility, Mariana also felt the same, it seemed that we were in tune.

This fragility / strength impelled us to make the decision that had to be made.

I was determined. She was also..

Maria was her own incarnate motivation without much effort, she was the living proof. What else was needed?

At the same time I had no idea and felt completely insecure.

We are insecure. What will happen?

At the same time we are not concerned, we are insecure but that does not mean that we do not have to act. Insecurity is no reason to stand still.

There was no fear within that fragile and vulnerable feeling. I didn’t even feel courage at all. It was a mix of everything.

The decision simply lay between choosing Maria’s life or death.

Furthermore, we suspected that it would not be that easy.

We do not abound in money, we live with enough, even though the balance tends more towards the less. Even so, we’re lucky.

As much as we get used to counting our money every day, managing our things, in short, the structure that governs our life in a certain way, it seems that we have reached a banal normality where we stop questioning the way we life.

The normal state of being Portuguese or of my generation at least has been that of living on the edge.

Life being more expensive, even though there is more offer and choice than ever before, it seems that we feel more and more drained, tired, without really having accumulated anything. 

It seems that the life we ​​lead drains us of energy and leaves us apathetic.

When I face this scenario of saving Maria’s life, which I no longer consider to be a dog, but a being with individuality and personality, I cannot help complicating my life further.

Our life together. Fortunately Mariana and I get along, one says kill and the other says skinning.

Life sometimes leads us to certain crossroads. 

We are what they call entrepreneurs, which is very much in vogue, it seems, however much this word and concept tickles the back of my head, itches my arms, my legs, the little toe of my left foot. It looks like hives.

To be constantly fighting, which seems to be the routine of all of us these days, wanting to make things happen, being fighting for a few bucks  and at the same time having to make the decision to choose the life or death of Maria, there was little clarity of mind, none of it at all.

I see the money and interpret the money, each one sees it in his own mirror, in his way of thinking and justifying existence.

Basically, it has no intrinsic value, it is just paper, except the value we want to assign or we are forced to assign given the circumstances of each person’s life. 

It seems that the circumstances of one’s life limit the interpretations and meaning we give to everything. 

Someone who lives in a social neighborhood has a different relationship with money than a person who lives in a mansion, that is obvious. 

Maybe it’s not so much the money, but the proper meaning that is given to it. 

I can be poor and have a tremendously rich and abundant life. 

Or be rich and have lived in vain.

This reminds me of a story.

A humanitarian organization had realized the need for that community to improve the productivity of their workforce. 

They had a tradition of weaving, whether carpets, clothes, etc.

Making a simple rug took a week working hard eight hours a day.

The idea was to do more in less time, increase production, after all that is the meaning of progress, performance and efficiency. And profit.

This organization raised the funds and managed to acquire the desired equipment.

In a few months they would come back to assess how things were going in that community and adapt if necessary.

Those months passed.

There was an elderly woman who was a kind of matriarch, with a lot of knowledge about the whole weaving process and it was she who kept that tradition alive.

Asked about the new equipment, how she was getting along with it, the lady replies:

– Very well. I can do a lot more and in less time.

– Great! How many rugs can you make now per week?

– The same!

– The same?! But…?

– Yes, the difference is that I used to take a week to do one and now it takes only a day. So I have the remaining six days to be with friends and family, dance and work in the garden.

Productivity spins the world and all its decisions, the fruit of each person’s wishes or fears. Or the desire to feel important if ones life is empty.

The economy is based on desires, policies are based on desires, on desires to fill the void that we feel inside. This is the basic true.

No material object, fame, power, prestige, will erase that void. 

This emptiness inside is the reason behind the destruction of the planet’s resources. 

I have nothing against this behavior. Some say that everyone has their own karma or destiny. But I don’t take this story of karma very well. 

There is also intelligence and she must be used. 

We are not passive elements in this equation.

Maria is anything but passive. Her body is a compulsion of energy who wants to live at all costs. No matter what.

Why did we make money a problem?

It is partly an expression of fear and insecurity in which we are raised and educated, it is the expression of this incessant search for pleasure, the creation of identity in that pleasure, the creation of well-being. That’s partly that. But that is not all.

Money brings power, everyone knows and desires it, it is simple and direct, pragmatic, it is or is not, to be or not to be. It has no middle ground, no matter how much one wants to imagine a middle ground for it.

 This is where speculators are experts. 

To create expectations, which are abstractions.

And with that, the poor management of the planet’s resources.

Not only of the planet but the simple resources of our daily lives, our homes.

A simple mind, which is not simpleton, a peaceful mind is all that a human being needs. To be at peace, enjoy it.

And with this enjoyment the resources of the planet would be very few for sure.

Simplicity makes the presence of an animal, a tree, another person, whatever it is, very intense. 

This state of simple relaxation is tremendously intense. 

I never felt anything like this, not even when I immersed myself in philosophical and abstract readings.

A philosophy book for me compared to the presence of a tree, will never surpass its value.

Nature makes me feel close to everything, it is as if I live within a large community.

The community doesn’t just start with the family, it also expands to friends and so on… and flows like a river to everything and everyone.

Any decision that is made is almost always due to having this community present.

Personal desires become almost irrelevant.

But more than all the considerations that I wanted to take or evaluate, the simple fact of having to choose Maria’s death just because I didn’t have the money to choose between surgery  or not, made my human condition, mine education and my pseudo observations of what it means to be human, my most beloved beliefs, the debates that I had had throughout my existence about what is right or wrong, all this worth zero. At that moment it really worth zero.

It was like I had no choice.

To act in intelligence is to have no choice.

There is no choice, there is spontaneity, naturalness.

Of course, in tense moments there is little clarity of mind. The options arise when the storm passes. Then everything is easy to do and even project.

Life is big enough to know that everything is possible, as long as the first step is taken. It is the truth. At the same time the impact of death.

The choice of death and what it meant.

The distinction between life and death is very blurred.

The two are completely intertwined and dependent on each other. 

There is a time when death seems to mean life and other when life seems to mean death. A relative universe, therefore.

A universe in constant flux and mutation in which the moment before has little or nothing to do with the moment after and where a lively and attentive look emanates and incarnates and laughs all the time.

Nature seems to laugh all the time.

Those tears meant all this and more.

This much more would come with time.

This much more was the way forward.

This much more for me was equivalent to:

– first, not being sure of anything;

– second, knowing nothing;

– third, never knowing anything;

– fourth, to have lived only in an illusion or in several illusions;

– fifth, face and live in nothing, in the I don’t know.

For some reason being stubborn has its advantages or to a certain degree, tenacity that is, the distinction between the two is very thin and my partner and I have this characteristic, of being obstinate.

 The decision we made was pending between a surgical operation that ranged between 50 percent success or 100 percent failure.

There are times when we must trust what life offers us, it is like reading a book, not only reading but writing at the same time.

Choosing to waste a small fortune on Maria which we had never seen in our life, seemed to us the right thing to do and was simultaneously the choice, not only between her life and death but also the life and death of both of us.

We were finished, tired, defeated.

This choice contained the scent of a new beginning.

New beginnings knock on the door every day, at all times, in all breath, in every look, in every contact, in every corner.

With an open heart, fragile and vulnerable, afraid to expose ourselves, afraid to exploit our incompetence and neglect, afraid of our uncertainties, we went on. And so the story goes.

The destruction of the self is the essence of beauty.

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