5. Diário: se há coisa que ainda não entendo… / Diary: if there’s anything I still don’t understand …

Algures em Setembro de 2012

Porque faço perguntas? Porque procuro respostas? 

De que são fruto as respostas? E as perguntas?

Imagino o seguinte. 

Se não existisse uma pergunta, seja lá qual ela for, isso é impeditivo de saber o que estou a fazer? A sentir? A viver? Há perguntas que são úteis? Outras inúteis? 

Quando vejo o mar, as ondas, não se me ocorre nada em que pensar. Apenas observo, escuto, olho. 

Nesse e neste movimento ondulante é como se todas as perguntas se tornassem irrelevantes. 

Estou vivo ali. Estou vivo aqui e agora.

Existe o momento, inamovível, sereno. 

E os problemas… não existem problemas. 

Os problemas existem porque procuro respostas?

E se eu ficasse com o problema? Vê-lo, acarinhá-lo, vê-lo manifestar-se na sua inteireza, ver as respostas de me dá. 

Se a pergunta inicialmente é equivocada, pode significar que as respostas também elas sejam equivocadas. 

Mas se não crio problemas também não crio soluções.

Uma mente clara, um coração claro, limpo, pacífico, não responde com claridade, simplesmente dissolve a pergunta. É isso. Uma mente clara e simples dissolve qualquer pergunta e nisso parece existir um forma distinta de viver e sentir.

Pelo menos era isto que o meu corpo via quando observava a tranquilidade com que a Maria se movia e se deitava naquela pequena jaula cubículo. 

Estávamos numa clínica veterinária em Guimarães.

Ainda não tinha sido operada, ainda não se sabia o que tinha. Mas a sua tranquilidade, a sua inocência, eram como um livro aberto e uma lição a apreender.

Só me ocorria uma coisa. Se o mesmo tivesse acontecido a mim, um humano, dificilmente sentiria tranquilidade naquela situação. Não sei o que faria, possivelmente quereria partir tudo à minha volta.

Vivo demasiado ocupado e preocupado. 

O quotidiano esmaga e qualquer desvio dele parece ser o fim. 

No fundo é difícil ser tranquilo, não sei bem o que é ser tranquilo. A tranquilidade é apenas uma palavra, um símbolo, não é uma realidade. 

Procuro a tranquilidade em mundos e fundos, em ser isto ou aquilo, em escolher isto em vez daquilo, em identificar-me com isto em vez daquilo… ora não é isto o inicio do sofrimento? Não é isto o caos? Este movimento ansioso já é o caos e não é a liberdade ou a escolha que possa fazer que vai atenuar o meu desconforto… porque ele continua lá apesar das escolhas, e estes mundos e fundos são as meras projecções dos medos , das inseguranças, das inúmeras tristezas não resolvidas.

As tristezas que não são vistas, que não são entendidas prolongam-se por uma vida inteira.

A Maria era e continua a ser um espelho. O perfeito espelho.

Na verdade, nem sequer existe coragem de observar os medos e as inseguranças, isso parece ser um tabu.

E não nos reunimos uns com os outros para sermos alunos e professores uns para outros, de entendermos mutuamente aquilo que somos, uns aos outros, nas nossas fragilidades.

No limite, queremos convencer todos de que estamos bem, ou até de impor nos outros as nossas pseudo verdades. Como é que podemos viver uns com os outros tendo esta atitude?

Porque não nos reunimos a dialogar sobre as nossas fraquezas e medos, assumi-los? Pelos vistos, são bem mais comuns do que parece. Somos muito iguais em muitos aspectos, muito semelhantes mesmo.

Raramente dois seres humanos se juntam para abordar estes medos comuns e serem um espelho um do outro. De querer aprender.

Nesta aprendizagem há liberdade?

É o que vejo na Maria, uma constante vontade de ser, de existir. Ser livre.

É muito mais fácil obstruir, vestir uma máscara, fingir, ser no fundo e em primeiro lugar, desonestos connosco. 

A Maria não me deixava escapar, não me deixava fugir do meu medo e insegurança.

E o seu ar inocente e potente, sim, porque a inocência é potente e indomável, é pura energia de vida, o seu ar inocente lá ia fazendo estragos em mim.

É o espelho perfeito do que eu sou. 

Se eu teria a coragem ou não para ver isso, dependeria só de mim. Ela era a perfeita mestre.

Quão belo é este livro, este livro que se abre e se lê a cada segundo da vida.

São os animais, são as folhas, as árvores, o vento, as pessoas que passam na rua que incitam esta ou aquela reacção… esta revelação. 

A Maria é um livro, mostra-me todo este significado, o significado de estar vivo, de ter um corpo repleto de nervos, carne, ossos, olhos, boca, mãos e pés. 

E o significado de partilhar a vida com toda e qualquer pessoa, seja ela familiar ou não. É o mundo a nossa casa.

A tranquilidade dela dentro daquela jaula era a mais simples expressão da beleza. 

A jaula fria, de metal, asséptica, não controlava a sua vida. Ninguém lhe podia tirar isso e a mim tampouco. 

Não me importava e nem me importo que pensem que as minhas observações são puros delírios românticos. Estou a ler o livro e de pouca importam os resultados.

A vida não é medida pelos resultados, é medida pela intensidade com que se a vive.

Uma coisa é certa, um livro tem inúmeras páginas, inúmeras palavras, inúmeras combinações. 

Eu estou a ler o livro. E o mais belo de tudo é que no momento seguinte, o que antes foi e ocorreu, de pouco interesse tem para o próximo momento.

E isto é o mais difícil de perceber, quanto mais explicar em palavras.

Esta espécie de descontinuidade. Se eu me prendo ou identifico com o que antes vi ou senti, isso já é impeditivo de receber o que de novo surge momento a momento.

E desta forma a Maria parece-me sempre nova. 

Como é que eu posso decidir em contra a vida dela? 

Eu não posso dizer “ok, já não há nada a fazer, eutanaziemos.”, como alguns nos sugerem fazer.

Eutanaziar um animal por capricho? Por preguiça? Paa acabar com o sofrimento dela? Ou acabar com o meu sofrimento? Pela minha incapacidade de aceitar a mudança?

Não sei se será o tabu do sofrimento que nos leva a tomar estas decisões.

Evitar ver o sofrimento parece insensato. Ele é um alerta e se seriamente, e não com ideias políticas ou religiosas ou filosóficas a encobrirem o próprio sofrimento, se com seriedade vemos o sofrimento, perceberemos que ele é um motivo para a mudança. É a própria vida a levar-nos numa direcção, desconhecida.

Tudo está ainda por fazer na nossa sociedade! Essa é a questão! 

E a Maria de olhos bem arregalados parecia compreender o que se passava dentro desta minha cabeça. 

A língua dela de um lado para o outro como um pêndulo incansável. E num ímpeto, a língua dela áspera, líquida, a tocar-me na pele. Faz cócegas, é um deleite. Ainda é.

Com poderia trocar isto fosse pelo que fosse? Kant? Nietzche? Fernando Pessoa, Saramago.… por muito que goste deles de pouco ou nada me serviam naquele momento. E aquele momento convidava-me a morrer e a esquecer tudo o que conhecia. Aquilo ali era a própria vida a acontecer.

A vida numa língua cheia de baba.



Sometime around September 2012

Why do I ask questions? Why do I look for answers?

What are the answers for? And the questions also?

I imagine the following.

If there was no question, whatever it is, is that a hindrance to knowing what I am doing? What I am feeling? Or Living? Are there questions that are useful? Are there simply useless questions?

When I see the sea, the waves, I have nothing to think about. 

I just watch, listen, look. Inquire into it spontaneously.

In that and this undulating movement it is as if all the questions become irrelevant.

I’m alive over there. Here. I am alive here and now.

There is the moment, immovable, serene.

And the problems… there are no problems per se.

Are there problems because I’m only looking for answers?

What if I stayed with the problem? To see it, to cherish it, to see how it manifests in its entirety, to see the answers it gives me, not the answers I want.

If the question is initially wrong it may mean that the answers are also wrong.

If I don’t create problems, I don’t create solutions either.

A clear mind, a clear, clean, peaceful heart, does not answer clearly, it simply dissolves the question. It is learning. A clear and simple mind dissolves any question and there seems to be a different way of living and feeling.

At least this was what my body saw when he observed the tranquility with which Maria moved and lay down in that small cubicle cage.

We were in a veterinary clinic in Guimarães.

She had not yet been subject to surgery, no diagnostic made.

But her tranquility, her innocence, was like an open book and a lesson to be learned. I thought so. The apparent pain she was going on didn’t seem to prevent her from being.

It just occurred to me that if the same thing had happened to me, a human, I would hardly feel at ease in that situation. I live too busy and worried.

Everyday life crushes and any deviation from itself seems to be the end.

Deep down it’s hard to be calm, I don’t know what it’s like to be quiet. 

Tranquility is just a word, a symbol, it is not a reality.

I seek tranquility in being this or that, in choosing this instead of that, in identifying myself with this instead of that … now isn’t this the beginning of suffering? Suffering itself? Isn’t this chaos? 

This anxious movement is already disorder and it is not freedom or choice thar change it … and these worlds I chase are the mere projections of my fears, insecurities, countless unresolved sorrows.

Sorrows that are not seen are not understood and thus go on for a lifetime.

Maria was a mirror. The perfect mirror.

In fact, there is not even the courage to observe my fears and insecurities, this seems to be taboo, to simply look at them. Look.

Probably we don’t get along  together with each other, to be for each other, to understand each other in our weaknesses because we are entertained with ourselves.

Ultimately, we want to convince ourselves and everyone that we are doing well or to impose our pseudo truths on others. 

How can we live with each other with this attitude? We don’t get together to talk about our weaknesses and fears, the basic stuff, and see that apparently we have  much more in common than it seems. We are very similar in many ways indeed.

Rarely two human beings come together to address these common fears and mirror each other.

It is much easier to obstruct, to wear a mask, to pretend, to be first and foremost, dishonest with ourselves.

Maria wouldn’t let me escape, she wouldn’t let me escape from my fear and insecurity. It was too damn obvious.

Her innocent and potent look, yes, because innocence is potent and indomitable, it is pure energy of life, her innocent look was doing havoc on me.

She was the perfect mirror of what I was.

Whether or not I would have the courage to see it would depend on me alone. She was the perfect master.

How beautiful is this book, this book that is open and available to be read every second of life. It is the animals, the leaves, the trees, the wind, the people passing by on the street that incite this or that reaction … this revelation.

Is life a constant revelation? Like a musician wich is always improvising within the mood of creativity?

Maria is a book, she shows me all this meaning, the meaning of being alive, of having a body full of nerves, flesh, bones, eyes, mouth, hands and feet.

Her tranquility inside that cage was the simplest expression of beauty.

The cold, aseptic, metal cage did not control her life.

Nobody could take that feeling away from her and from me neither.

I don’t care what people may think of my remarks as pure romantic delusions.

One thing is certain, a book has countless pages, countless words, countless combinations, countless significance.

I am reading the book. The most beautiful of this all is that in the next moment, what was before, has little interest for what is the next moment.

This is the most difficult to understand, let alone explain. This kind of discontinuity. If I hold on or identify with what I have seen or felt before, this is an impediment to receiving what is coming new moment by moment.

In this way Maria always seems new to me.

How can I decide against her life?

I can’t say “ok, there is nothing more to do, euthanazia is the solution.”

Some people suggested us to that. To kill is very easy, it is the soul and bread of our culture, an anti-life culture.

Euthanize an animal on a whim? Out of laziness?

I don’t know if it is the taboo of suffering that leads us to make these decisions. Avoiding seeing suffering seems unwise. It is the continuity of it. 

Suffering is a warning and if we take it seriously and act, not with political or religious or philosophical ideas that seem to only cover it, if we seriously see suffering, we will realize that he is a reason for change. 

It is life itself taking us in an unknown direction.

It seems that everything is yet to be done! That is the question!

Maria with wide eyes seemed to understand what was going on inside my head.

Her tongue moving from side to side like a tireless pendulum. In a rush, her tongue, rough, liquid, touched my skin. Tickles, it’s nice.

How could I exchange this for anything? Kant? Nietzche? Fernando Pessoa, Saramago.… as much as I like them they served me little or nothing at that moment. The moment invited me to die and forget everything I knew. That moment was life itself happening.

Life in a drooling tongue.

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