6. Diário: e agora? / Diary: now what?

Algures em Setembro de 2012.

Dois dias passaram. 

Terça-feira de tarde fomos à clínica ver a Maria. 

Tínhamos prometido ao nosso recente amigo Nestor prestar ajuda nas despesas da clínica. 

A Maria fora atropelada num sábado à noite, não se sabe a que horas. Eu e Mariana tínhamos ido nesse dia visitar os nossos amigos a uma feira. Éramos sócios no projecto dos sabonetes naturais. Dois casais. Sócios não é bem o termo, mas estavamos juntos nisto. 

A feira tinha corrido bem e os sabonetes ajudavam as pessoas a tratar de patologias da pele. Como isso acontecia não sabíamos bem, eram naturais, levavam ingredientes simples, talvez fosse por isso.

O nosso amigo Nestor como sempre estava activo, preocupado, disposto. Ainda não sabíamos o diagnóstico, estávamos prestes a saber. 

Primeiro queríamos ver a Maria, afinal de contas, a última vez que tínhamos posto os olhos em cima fora de noite, e a noite trás cansaço e confusão, o que a bem dizer não ajuda muito. Entramos no consultório e após as devidas apresentações com a veterinária, deslocamo-nos até à sala onde a Maria estava a descansar.

Assim que entramos a Maria assim que nos viu imediatamente expressou o seu contentamento. 

O seu corpo move-se, aquela bola de pêlo enorme tenta levantar-se, cai. 

Ela tenta de novo e cai outra vez.  E outra vez.

A sua motivação parece-me trágica e ao mesmo tempo natural e bela. 

Ela parecia indiferente à dor, se é que ela a sentia, ou se a sentia, a dor, o sofrimento, não era impeditivo de manifestar contentamento, alegria. 

Quão facilmente, à mínima contradição vivida, sentimos que perdemos tudo. 

Quão frágeis somos nós humanos.

Não sei que factor ou factores nos fazem tão frágeis assim. Medo? Tristeza? Insegurança?

Simplesmente fomos assim educados? 

Ensinados desde o berço a assumir que o medo, a tristeza e até o prazer, são objectos permanentes, objectos inamovíveis da nossa maneira de ser, da nossa identidade, como se, sem eles fossemos nada. 

É difícil imaginar viver sem medo e sem tristeza, sem estas condições. 

Ver a Maria naquele estado despoletava um turbilhão de emoções e o meu corpo como que encolhia, contraía e mais do que tudo, o próprio pensamento também. 

A lucidez não era muita. 

O pensamento, esse mecanismo tão apreciado pela nossa cultura humana, que tanto produz como destrói, naquele momento de pouco me valia. Zero. Nada. Niente.

Sobrevalorizo o pensamento, talvez seja por isso que encontro tantas dificuldades na vida diária e na expressão do que sou.

Uma vez conheci um tipo, já nos seus quarenta e muitos, que ao saber da história da Maria, sim porque, há todo um universo paralelo em quem vive com animais. Partilhamos tudo e mais alguma coisa sobre os nossos companheiros, desde a doença x ou o episódio y, é uma espécie de terapia colectiva, partilhamos graças e desgraças. Talvez isto demonstre no fundo, que apesar de parecermos distantes da natureza, de parecermos indiferentes aos processos naturais porque a vida quotidiana faz-nos estar tão concentrados e focados na nossa sobrevivência, que viver com um animal, cuidá-lo e viver esta terapia colectiva, parece demonstrar que não estamos assim tão distantes das lides naturais da vida. 

É certo que há certos donos que parecem mais neuróticos com o animal do que outros, como se ele fosse um objecto de terapia profunda, e o animal parece dar-se bem com essa condição, ainda que por vezes se veja nele uma espécie de espelho do dono. 

É, os caminhos da vida são sinuosos. 

Esse rapaz contou-nos a história de como o seu companheiro, o cão Rocky, nome espectacular, recuperou de três AVC’s. 

Três AVC’s num curto espaço de tempo, não recordo bem se num espaço de dois anos ou algo assim, mas o que me ficou na memória foi o facto de ele ter dito que o Rocky em menos de três meses ter recuperado e ter ficado perfeitamente quase normal. 

Não a 100% porque um AVC deixa mazelas, mas o que impressionou foi o facto de o Rocky ter tido sempre aquilo que nós chamamos de uma atitude proactiva. 

Ele fazia, ele agia, não se lamentava do feito, não se autocomiserava sobre a sua trágica sorte, o seu infortúnio. Faz pensar quem é que está de facto domesticado ou não.

Ele agia independentemente do resultado. 

Instinto animal? Muitos diriam que sim. 

O rumo natural da vida, parece-me uma melhor percepção desta atitude. 

A cultura condiciona-nos em níveis que desconhecemos, não parece, mas nós os bípedes, somos facilmente sugestionados, hipnotizados. 

Uma criança ainda nem fez três anos e já escutou um “não” aí um bilião de vezes. 

Cada vez que vejo uma família com uma criança presto atenção ao diálogo entre eles, e a palavra não, é aquela palavra que surge num curto espaço de tempo, sem exagero, umas mil vezes. 

Como é que ao desenvolver-nos como seres humanos, como é que poderemos ver-nos livres deste grande Não?

Imaginemos o potencial desperdiçado numa criança que cresce com as crenças equivocadas sobre ela, sobre o que ela é ou não capaz de fazer, de ser, de viver. 

São precisas crenças sequer para termos uma vida completa, íntegra, pacífica, activa? 

O Rocky dizia-me que sim, embora sendo um simples canídeo, a sua atitude destruía completamente o meu pensamento positivo ou negativo, era como se o pensamento tivesse um valor assim reduzido e que havia algo mais para além da superfície. 

Fazia-me ver porque é tão difícil dialogar com certas pessoas, maiormente com aquelas que estão tão repletas de ideias e certezas, sejam pessoas instruídas ou eruditas ou não, vai dar ao mesmo.

Viver com o copo cheio, não saber escutar ou prestar atenção em quem está à nossa  frente parece um comportamento agressivo, violento até.

É o conhecimento um escape? Uma fuga de viver?

Encontramos a vida num livro?

Ou estes são um convite para experimentar a própria vida?

Que tipo de humanos somos? Os livros são úteis obviamente mas mesmo assim ocupam um lugar pequeno, são uma porta e é preciso saber atravessá-la. 

O conhecimento tem o seu valor e o pior que pode acontecer é depender desse valor para sentir e actuar na própria vida. Isso pode tornar o conhecimento limitado e repetitivo e para se poder funcionar com clareza e simplicidade no dia a dia parece ser necessário outra coisa.

O Rocky e a Maria mostravam-me que existia algo mais, uma espécie de estado de ser onde havia esta acção clara, inequívoca, de coração aberto, humilde, de atitude honesta, receptivo à descoberta, momento a momento, do que significa estar e ser vivo. 

Descobrir momento a momento o que é estar vivo implica estar em paz, receptivo. 

A acção parece ter um perfume diferente, é como se tivesse a ver as coisas pela primeira vez, de forma inocente e ingénua. A ingenuidade tem o seu ritmo e expressão próprias, assim como uma certa inocência.

Prezo manter esta inocência, a vida é bem mais intensa.

Poucas vezes na vida senti algo assim e sei que nesses poucos momentos uma intensidade completamente diferente da vida se expressou.

Foi como se fosse normal, o normal.

Como se viver intensamente fosse o normal da vida, viver plenamente sensível, esquecendo o que fui e nem sequer imaginando o que seria, estando aqui e agora presente. 

Era isto que a Maria e o Rocky e tantos outros animais me mostravam. 

A Maria é um doce. A sua abertura e disponibilidade para estranhos, o seu contentamento e facilidade para estar com estranhos. Deve ter vivido muito tempo entre humanos. 

Há quanto tempo vivia ela na rua era impossível de saber. Mostra sinais de que fazia algum tempo. 

O pelo seco e baço, o corpo magro, desbotado. 

E mesmo assim sempre alegre.

Ficamos uns bons minutos com ela, a tocar-lhe, a acariciá-la, a brincar com ela. 

Escusado será dizer que não foi preciso muito tempo para nos conquistar. A questão é agora saber como agir. 

E o diagnóstico era o seguinte:

“Não podemos fazer um diagnóstico completo nela porque não temos meios para fazer um exame neurológico. O que sabemos é que tem um pneumotórax e isso condiciona o nosso exame. Também sabemos que não se locomove, nem consegue manter a postura. Não podemos fazer muita coisa na verdade. É preciso decidir o que fazer.”

Estas foram mais ou menos as palavras.

Em suma, ou assumimos a responsabilidade naquele momento ou provavelmente ela diria adeus à vida terrena e  seus prazeres.

O nosso amigo Nestor parecia estar entre dois mundos.

Pelo que soubemos ele já tinha recuperado cerca de trinta cães da rua, acidentados ou abandonados. 

Ter mais um embora pareça insignificante, este mais um no caso da Maria parecia implicar um grande transtorno, como se veio a verificar muito depois.

Na minha cabeça ressoavam as palavras do Nestor:

“Decidi fazer alguma coisa, disse para mim mesmo que não ia fechar mais os olhos, que não ia ignorar mais”. 

Isto depois de me dizer que tinha os trinta cães em casa resgatados da rua. Eu só admirava a tenacidade deste homem, no fundo a simplicidade, pois a coragem requer simplicidade, simplicidade de agir, ou simplesmente agir e ir aprendendo e fazendo.

Quantas mais pessoas existiriam como ele? 

Se muitas mais pessoas agissem como ele o que seria do nosso mundo? Se calhar é por essa razão que ele lá vai funcionando e as políticas são um mero fumo que esconde a verdadeira força por detrás de tudo o que funciona.

Um não por vezes transforma-se num sim. 

E era isso que eu e a Mariana estávamos prestes a descobrir, ainda que fosse demorar uns meses.

Em sintonia, eu e a Mariana, talvez dentro do nosso subconsciente, já tínhamos ambos decidido, ainda que sem comunicar um ao outro, que íamos ficar com a Maria. 

Só queríamos saber o que fazer, o como, onde e quando e porquê  e inteirarmo-nos da real condição médica dela.

Foi então que num passo, a Maria estava já dentro do nosso carro, a caminho da nossa casa na montanha, para um retiro espiritual com o tema:

 “Como agir. O que fazer com um animal que nunca vimos na vida e que está entre a vida e a morte?”.

Como prometido, dividimos as despesas na clínica com o nosso amigo Nestor. 

Tínhamos prometido ajudar quando vimos o Nestor pegar na Maria naquela fatidica noite. Ele conhecia a clínica. E assim o ajudamos.

 Despedimo-nos dele e fizemo-nos ao caminho.

Durante a apreensão da viagem a tensão rebentava com a minha mente e o meu corpo.

Observava pelo retrovisor a bela criatura de nome Maria.

Ela libertava uma pontinha de baba pelo canto da boca, observava as árvores que passavam pela janela, como que imersa num universo canino qualquer.

E um poema veio-me à mente:

Uma repetição de palavras

E ideias sem fruto.

Contudo, estou vivo.

Na minha apatia existe felicidade e raiva.

Exijo ser amado se odeio o que sou?

Ao imaginar, a ignorância está implicada.

Não posso ir muito longe se me amo apenas.

Não posso ir muito longe se me odeio também.

Ver é não ser. É ser nada. E ser tudo.

Sozinho no desconhecido,

Sou um eremita dos meus pensamentos,

Sou um eremita das palavras.

E faço jejum do mundo.

A porta está aberta e em ordem.

Não aproximo e liberto.

Qual o fundamento da Vida?

Não posso viver a beleza se penso demasiado.

Pensar é existir.

Existir é não existir.

O pensamento é temporário.

Irrelevante.

O que está diante de mim é a verdade.

É a paz.

E a paz age como um vulcão.



Sometime around September 2012

I was looking at Maria inside her cage. At the same time drooling me all over.

Two days passed after the accident. It was Tuesday afternoon now.

Saturday we had promised our recent friend Nestor to help with the clinic’s expenses.

Maria had been run over on a Saturday night, no one knows at what time. 

Mariana and I had gone that day to visit our friends at a fair. We were partners in the natural soap project. Two couples. Partners is not quite the term but we were in this together.

The fair had gone well and the soaps helped people deal with skin disorders. 

How that happened we didn’t know well, they were natural, they used simple ingredients, maybe that was why.

Our friend Nestor was always active, concerned, willing. We didn’t know the diagnosis yet, we were about to know.

Our wish was to be with Maria, after all, the last time we had set our eyes on her it was night and night brings tiredness and confusion, which does not really help much. 

We were now at the clinic, in the room where Maria was resting.

I remember very well that as soon as we entered the room Maria as soon as she saw us she immediately expressed her contentment.

Her body moves. That huge hairball tries to get up, falls.

She tries again and falls again. And again.

Her motivation seems to me tragic and at the same time natural and beautiful.

She seemed indifferent to the pain if she actually felt it, or if she felt it, the pain, the suffering, was not an obstacle to expressing contentment, joy.

How easily at the slightest contradiction experienced we feel that we have lost everything.

How fragile we humans are.

I don’t know what factor or factors make us so fragile. Fear? Sadness? Insecurity?

Were we just educated to feel this way?

Taught from the cradle to assume that fear, sadness and even pleasure are permanent objects, immovable objects in our way of being, our identity as if without them we were nothing.

It is difficult to imagine living without fear and without sadness, without these conditions.

Seeing Maria in that state triggered a whirlwind of emotions and my body seemed to shrink and contract and more than anything the contracting of thought itself as well. Lucidity was not much.

Thought, this mechanism so appreciated by our human culture, that both produces and destroys, at that moment was of little use. Zero. Nothing. Niente.

I overestimate thought and perhaps that is why I find so many difficulties in daily life and in expressing what I am. Expressing my song.

I once met a guy, in his forties or so who knowing Maria’s story, yes because, there is a whole parallel universe in those who live with animals. We share everything and anything about our companions, from illness x or episode y, it’s a kind of collective therapy, we also share graces and misfortunes. Perhaps this demonstrates that although we seem distant from nature, indifferent to natural processes because everyday life makes us so concentrated and focused on our survival that living with an animal, taking care of him and experiencing this collective therapy, this seems to demonstrate that we are not that far from the natural life.

It is true that there are certain owners who seem more neurotic with the animal than others as if animals were an object of profound therapy. The animal seems to get along with this condition although sometimes a kind of a mirror from the owner is seen on him.

Yes, the paths of life are winding.

This guy told us the story of how his companion, the dog Rocky, a spectacular name, recovered from three strokes.

Three strokes in a short time, I don’t remember well if in a span of two years or something, but what stuck with me was the fact that he said that Rocky in less than three months had recovered and was almost perfectly normal.

Not 100% because a stroke leaves marks but what was impressive was the fact that Rocky always had what we call a proactive attitude.

He did it, he acted, he didn’t regret it, he didn’t pity himself about his tragic luck, his misfortune. It makes one wonder who is actually domesticated or not.

He acted regardless of the outcome.

Animal instinct? Many would say yes.

The natural course of life seems to me to be a better perception of this attitude.

Culture conditions us at levels we do not know, it does not seem but we bipeds are easily suggested, hypnotized.

A child is not even three years old and has heard a “no” a billion times.

Every time I see a family with a child I pay attention to the dialogue between them, and the word no is the word that appears in a short time without exaggeration, a thousand times.

How is it that when we develop as human beings, how can we get rid of this great No?

Imagine the potential wasted on a child who grows up with the wrong beliefs about him, about what he is or is not able to do, to be, to live.

Are beliefs even necessary to have a complete peaceful, active life?

Rocky told me that yes, although he was a simple canid, his attitude completely destroyed my positive or negative thinking, it was as if thought had such a small value in life and that there was something more behind the surface.

It made me see why it is so difficult to talk to certain people, especially those who are so full of ideas and certainties, whether they are educated or learned or not, it is the same.

Living like a glass full of water and not knowing how to listen or pay attention to who is in front of us seems like aggressive behavior, violence.

Is knowledge an escape? An escape from living? A way of being violent?

Did we find life in a book?

Or are these an invitation to experience life itself?

What kind of humans are we? Books are obviously useful but even so they occupy a small place, they are only a door and we need to know how to go through it.

Knowledge has its value and the worst that can happen is to depend on that value to feel and act in your own life. This can make knowledge limited and repetitive and in order to be able to function with clarity and simplicity on a daily basis, something else seems to be necessary.

Rocky and Maria showed me that there was something more, a kind of state of being where there was a clear unambiguous action with an open, humble heart, an honest attitude receptive to the discovery, moment by moment, of what it means to be a living being.

Discovering moment to moment what it means to be alive implies being at peace, open and receptive.

The action that comes from this openness seems to have a different scent, it is as if I have to see things for the first time in an innocent and naive way. 

Naivety has its own rhythm and expression, a certain innocence.

I value maintaining this innocence, life is much more intense.

Few times in my life have I felt anything like this and I know that in those few moments a completely different intensity of life was expressed.

It was as if this intensity was normal, the normal way of living.

The norm of life living fully sensitive, forgetting what I was and not even imagining what I would be, being here and now present.

This is what Maria and Rocky and so many other animals showed me.

Maria is sweet. Its openness and availability to strangers, its contentment and ease to be with strangers are bewildering. 

She must have lived a long time among humans. How long she lived on the street was impossible to know. 

She showed signs that she was living on the road for some time.

The dry, dull hair, the thin, faded body. And yet always happy.

We spent a good few minutes with her, touching her, stroking her, playing with her. We forgot track of time.

It goes without saying that it didn’t take long for her to win us over. 

The question was how to act. What to do?

And the diagnosis was as follows:

“We cannot make a complete diagnosis because we do not have the means to do a neurological examination. What we do know is that she has a pneumothorax and this limits our examination. We also know that she cannot move nor can she maintain her posture. We can’t really do much. You have to decide what to do. ”

These were more or less the words as I remember.

In short, we either took responsibility at that moment or she would probably say goodbye to earthly life and its pleasures.

Our friend Nestor seemed to be between two worlds.

Nestor had already recovered about thirty dogs from the street either injured or abandoned.

Having another one although it seemed insignificant, this one in Maria’s case seemed to imply a great inconvenience as it turned out to be much later.

Nestor’s words resounded in my head:

“I decided to do something, I said to myself that I wasn’t going to close my eyes anymore, that I wasn’t going to ignore it anymore.”

This after telling me that he had thirty dogs at home rescued from the street. 

I only admired the tenacity of this man, deep down simplicity, because courage requires simplicity, simplicity to act or simply to act and go on learning and doing.

How many more people would exist like him?

If many more people acted like him what would become of our world? 

Maybe that’s why it is working despite all the apparent chaos and politics are just a smoke that hides the real strength behind everything that is working in our society.

A no sometimes turns into a yes.

That was what Mariana and I were about to discover, even if it was going to take a few months to settle.

In tune, Mariana and I, perhaps within our subconscious, had already decided, even without communicating to each other that we were going to rescue Maria.

We just wanted to know what to do, how, where and when and why and to learn about her real medical condition.

And  in one simple step Maria was already inside our car on the way to our mountain house for a spiritual retreat with the theme:

 “How to act. What to do with an animal that we have never seen in life and is between life and death? ”.

As promised, we shared the expenses at the clinic with our friend Nestor.

We had promised to help when we saw Nestor pick up Maria that fateful night. 

He knew the clinic. And so we help him as promised.

We said goodbye to him and made our way.

During the apprehension of the trip the tension broke my mind and body.

In the rearview mirror I watched the beautiful creature named Maria.

She released a little bit of drool from the corner of her mouth, watched the trees passing by the window as if immersed in some canine universe.

And a poem came to mind:

A repetition of words

And fruitless ideas.

However, I am alive.

In my apathy there is happiness and anger.

Do I demand to be loved if I hate what I am?

When imagining ignorance is implied.

I can’t go very far if I just love myself.

I can’t go very far if I hate myself too.

Seeing is not being. 

It is being nothing. 

And be everything.

Alone in the unknown,

I am a hermit of my thoughts,

I am a hermit of words.

And I fast the world.

The door is open and in order.

I do not approach and release.

What is the foundation of Life?

I cannot live beauty if I think too much.

To think is to exist.

To exist is not to exist.

Thought is temporary.

Irrelevant.

What is before me is the truth.

It is peace.

Peace acts like a volcano.

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