9. Diário: as decisões / Diary: decisions

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Algures em finais de Setembro de 2012

No Hospital. Aquilo parecia uma daquelas cenas típicas de séries americanas. O stress, o movimento dos corpos aleatórios. O choque entre os corpos como bolas de bilhar ao acaso. Via aquilo com curiosidade e a seriedade no rosto daquelas pessoas impressionava-me, comovia-me.

Não recordo ter presenciado algo assim.

A Maria foi transportada de maca para as urgências.

Esteve um bom par de horas a ser examinada. 5h ou 6h?

Cá fora, este corpo que leva o meu nome, estava tão carregado de tensão que a única coisa que poderia acontecer era chorar. E foi o que aconteceu.

Soube-me  bem aquele choro, não que procurasse sentir prazer nele, mas aliviava-me.

Sentia também a presença de espírito da Mariana. 

Afinal, tínhamos partilhado isto juntos.

Não queria ter de decidir seja o for por conveniência. 

Não queria ter de decidir fosse o que fosse por incapacidade ou por desilusão ou por influência. Queria ter o espírito claro para poder ver o que fazer a actuar.

E o corpo na sua inteligência lavou-se em lágrimas.

E de súbito chamam-nos para ir receber o tão famigerado diagnóstico, aquele que tanto desejávamos saber, aquele que iria mudar o rumo da situação, do futuro, do presente, qualquer coisa assim.

“A Maria está paraplégica, tem as vértebras x y e z danificadas, há fragmentos por todo o lado, é preciso intervir cirurgicamente. Por outro lado, estes fragmentos parecem ter quebrado as ligações nervosas que fazem com que os músculos da bexiga e dos intestinos contraiam para que ela possa fazer as suas necessidades. Se não contraem ela não faz nada, se não faz nada, acumula.”

E eu a pensar, chiça, desde o acidente já passaram 5 dias!

Ao que a médica continua.

“A intervenção seguramente ajudará a recuperar a locomoção, ainda que não saibamos muito bem como ela irá ficar, mas a parte de recuperar o funcionamento da bexiga e intestinos, isso não sabemos. 

Há casos em humanos paraplégicos que passados uns anos recuperam alguma funcionalidade mas mesmo assim estamos a falar de uma probabilidade reduzida. 

Em animais não há caso algum registado porque simplesmente os animais ou são inicialmente eutanasiados, ou, a meio do percurso, após cirurgia bem sucedida, e fisioterapia bem sucedida, as pessoas desistem porque não conseguem continuar. Este tem sido o padrão que conhecemos.” 

A médica continuou a falar mas eu já estava noutro mundo.

A Mariana mexia os olhos, suponho que devia estar a perceber o que a médica dizia. Ou não.

Espectacular. Era tudo o que queremos saber.

Eu pensava na pobre coitada sem fazer as devidas necessidades há pelo menos 5 dias. 

Nada de cócó nem xixi. Nicles bitocles. Dei por mim a imaginar o  balão de urina a explodir. Nem tanto com os intestinos pois volta e meia éramos visitados por pequenos, redondos e fofinhos cócós.

Não havia muito mais a dizer.

Foi então que pedimos uns minutos para estarmos sozinhos para decidir o que fazer. 

Encaminhamo-nos mais uma vez para o jardim e logo mais uma vez as lágrimas a começaram a escorrer pelos nossos rostos. Os pinheiros eram as únicas testemunhas disso. 

Não era tristeza nem nada do género o que sentia, a Mariana tampouco sentia o mesmo. Essa seria a reacção esperada perante aquela situação, perante a confusão acumulada nos 5 dias.

Apesar do que o óbvio e o comum possam dizer, apontamos para o impossível. 

A única coisa que havia a fazer era sem dúvida operar, não íamos morrer na dúvida, sem ter visto o que poderia acontecer, sem ter sequer tentado. Não.

Voltamos para dentro, reunimo-nos outra vez com a médica, que agora estava acompanhada por mais colegas e optamos pela cirurgia sabendo que a probabilidade de total recuperação era bastante baixa. 

Um bom e redondo sim, avancemos.

Acho que ninguém estava à espera. Os olhos e as sobrancelhas dos médicos levantaram-se de admiração. Devem ter pensado que éramos dois extraterrestres.

Aqueles segundos de estupefacção congelaram o momento.

Vocês sabem, parece que o tempo para.

Por vezes é preciso ser-se imperfeito e decidir e caminhar na mesma. Chamam a isso fé… ou se calhar também é  teimosia ou pura e simplesmente irracionalidade.

Por vezes basta dar um passo, a seguir vem o segundo, depois o terceiro, o quarto e o quinto e a soma destas individualidades é bastante simples. Um mundo.

Um passo de cada vez é em si próprio um mundo inteiro. Um mundo inteiro por ver e explorar. 

A curiosidade parece ser o motor natural do corpo. 

Já tinha percebido isso na Maria. Estava sempre atenta a tudo. Os olhos redondos e agudos, ternos, devoravam o espaço. Ela era o espaço.

Só era preciso dar continuidade à curiosidade dela… e muito provavelmente à nossa também.

Eu e a Mariana sabíamos disso, bastaria dar o passo seguinte e à boa maneira portuguesa… logo se veria.



Sometime in late September 2012

At the hospital. It looked like one of those scenes typical of American series. Stress, the movement of random bodies. The clash between the bodies like billiard balls at random. 

I saw that with curiosity and the seriousness on the faces of those people impressed me, moved me.

I don’t remember seeing anything like that.

Maria was transported on a stretcher to the emergency room. After that… nothingness.

It took the medical team a good couple of hours to examine Maria. 5h ​​or 6h?

Outside, this body that bears my name, was so charged with tension that the only thing that could happen was to cry. And that’s what really happened.

I felt good, not that I tried to enjoy it but it relieved me.

I also felt Mariana’s presence by my side. After all, we had shared this together.

I didn’t want to have to decide anything for convenience.

I did not want to have to decide whatever it was due to disability or disillusionment or influence. 

I wanted to have a clear mind so I could see what to do next. The body in its intelligence was washed in tears.

Suddenly they call us. The notorious diagnosis, the one we wanted so much to know, the one who would change the course of the situation, the future, the present.

“Maria is paraplegic, her vertebrae x y and z are damaged, fragments are everywhere, we need to intervene surgically. On the other hand, these fragments appear to have broken the nerve connections that cause the bladder and intestine muscles to contract so that it can do its job. If they do not contract, nothing happens and if nothing happens, she accumulates urine and feces. ”

I was thinking, damn, 5 days have passed since the accident!

The doctor continues.

“The intervention will certainly help to recover locomotion, even though we don’t know very well the end result but the part of recovering the functioning of the bladder and intestines, we don’t know for sure.

There are cases in paraplegic humans who, after a few years, recover some of the functionality of bladder and intestines but we are still talking about a low probability.

In animals, as far has I know, there is no case of recovery recorded because simply animals are either euthanized, or, halfway through, after successful surgery and successful physical therapy, people give up because they cannot continue. This has been the standard we know. ”

The doctor continued to speak but I was already in another world.

Mariana moved her eyes, I suppose she must have understood what the doctor was saying. Or not.

Spectacular. That was all we wanted to know.

I was thinking about Maria. No pee or poo for at least 5 days. I could imagine her bladder almost exploding, not much about intestines, because once in a while we were visited by small and funny poo poo’s.

There was not much more to say.

It was then that we asked for a few minutes to be alone to decide what to do.

We headed out into the garden once more and then again, tears started to flow down our faces. The pines were the only witnesses of this.

It wasn’t sadness or anything like that and Mariana felt the same as me. This  would be the expected emotional reaction to that situation due to the confusion accumulated during  those terrible 5 days.

Despite what the obvious and the common may say, we point to the impossible.

The only thing we had to do was undoubtedly to go on with surgery, we were not going to die in doubt, without having seen what could happen, without even trying. 

Oh no. No sir.

We went back inside, met again with the doctor, who was now accompanied with more colleagues and we said we opted for surgery knowing that the probability of full recovery was quite low.

A good and round yes, let’s move on.

I don’t think anyone was waiting for our decision.

The doctors’ eyes and eyebrows rose in awe. They must have thought we were two aliens.

Those stunned seconds froze the moment.

You know, like those moments when time stops.

Sometimes one have to be imperfect and decide and walk the same way. People call it faith… or maybe stubbornness or maybe simple irrationality.

Sometimes one step is enough, then the second, then the third, the fourth and the fifth and the sum of these individuals is quite simple. One World.

One step at a time is an entire world in itself. 

A whole world to see and explore.

Curiosity seems to be the body’s natural engine.

I had already noticed that in Maria. She was always attentive to everything. The round, sharp eyes, tender, devoured space. She was space.

It was only necessary to allow her curiosity to continue… and ours in some sense.

Mariana and I knew that it would be enough to take the next step and in a portuguese manner … soon we would see… soon we will see.