2. Canto em duas patas / Singing on two legs

Passaram-se oito anos desde que a Maria entrou na nossa vida.

Este relato é uma tentativa de contar o que fomos vivendo e aprendendo com a Maria ao longo destes anos. 

Por certo o leitor encontrará lugares comuns, estereótipos, aquando da leitura, mas os estereótipos por vezes encerram verdades ocultas, verdades que a repetição mecânica dos mesmos por vezes esconde.

Existem verdades por aí pintalgadas com cores, como um jardim repleto de flores, pleno de aromas. É só estar atento.

A memória é como bem sabemos incompleta, tende a completar os espaços vazios, a recriar situações, sensações, emoções. Fazer o relato das experiências com a Maria ao longo destes oito anos será um desafio.

O reino animal continua a precisar de testemunhas e de pessoas teimosas e persistentes, que continuam a querer dar voz aos que não têm voz. Agir não apenas por eles, mas por nós também, porque parece que precisamos mais nós deles do que o inverso. 

Mais do que um sentimento romântico aqui implícito, no nosso caso tornou-se uma verdade diária. 

É delicioso aprender com ela e com a mente aberta e disponível, aprender sobre a profundidade de nós mesmos e sobre o que significa ser humano. 

Fica-se com a sensação de que nós seres humanos perdemos algo ao longo da nossa história, o contacto com a Natureza, com esse lado insondável e profundo, eléctrico, dinâmico, pulsante e sereno. E nenhuma ideia, nenhuma crença substitui este nosso lado selvagem e criativo.

Os que não têm voz estão aí por todo o lado e ainda bem que existem, pois são o espelho da nossa condição humana, são eles que nos fazem parar, pelo menos quem quer ser parado. São eles no seu todo a Natureza.

A Natureza é mais intensa e verdadeira do que qualquer ideia que um humano tenha tido. Porquê? Porque toda a economia, toda a política, tudo o que conhecemos, deriva directa ou indirectamente dela. É o design dum novo automóvel inspirado num insecto, ou o velcro inspirado na forma como um outro insecto se agarra às coisas, são os produtos farmacêuticos, etc e etc. Sem ela não há cultura humana.

A vida sem animais seria por certo enfadonha. Tediosa.

E sem plantas também. 

Imaginar o planeta terra sem flores para mim é uma tragédia, uma aberração. E sem as árvores ainda mais.

Por vezes dói-me mais ver uma árvore abatida do que um animal falecido, mas sou eu que assim o sente, sem dar importância demasiada a um ou a outro. É tão fácil abater uma árvore porque  ela aparentemente não vocifera, não expressa essa violência que é o desmembramento dum galho. Não deita sangue vermelho vivo nem tem dois olhos.

Mas o bem nunca pediu ao bem e nunca pedirá ao mal para actuar em conformidade e fazer o que acha certo. 

O bem é independente do mal, não depende deste para criar e para se expressar, é preciso ir além do estereótipo da dualidade bem/mal.

Mas o que tem de ser feito tem de ser bem feito e há inteligência e sensibilidade nisto, em agir sem esperar nada em troca, em agir sem esperar elogios, sem esperar críticas, sem esperar aceitação e agir assim é agir em liberdade, esse é o bem, essa é a criatividade, a nossa origem.

Assim o entendo, ou vou entendendo.

Os animais têm o dom natural de despertar o bem que existe aqui dentro de nós e que por vezes anda esquecido ou adormecido, assim para o distraído.

O relato que aí vem retrata todo o reino animal e não apenas o reino duma cadela chamada Maria. 

Ela comporta-se como uma diva e uma diva tem o seu reino é certo. 

Menos mal, ela merece tudo de bom por aquilo que passou.

Reitero, que quando mencionei o reino animal, também estava a incluir nele esse outro reino do humano, porque animais somos também, e é bom, senão obrigatório, que não o esqueçamos.

A linha que separa o racional humano e os seus afazeres e o aparente irracional animal e o seu deleite feliz, é muito, muito ténue.

A nossa espécie, e que bem que o sabemos, comporta-se de maneira irracional, ele são as guerras, são a fome, são a inveja, são o medo, são a raiva, são a tristeza, são as mil e uma caras da contradição humana que teimamos em não querer compreender e ver, quanto mais transcender. 

Sem ver ou encarar isto, podemos passar uma vida inteira a esquivar-mo-nos dos nossos verdadeiros problemas.

Quem é que é mais irracional, um cão que sabe quando deve estar quieto e descansar, respirar, relaxar, ficar, ser, ou o atarefado humano que parece não fazer mais nada do que inventar ocupações para entreter a irracionalidade do seu medo ou insegurança?

É irracional dizer que se gosta de um animal e depois tratá-lo como se fosse sei lá… um saco de lixo?

Mas os problemas são alertas, é a maneira da inteligência nos mostrar como actuar, é a vida a nos dizer que há algo de equivocado. Os problemas são circunstâncias por definir e resolver. É necessário coragem e desapego para estar com um problema e aprender com ele. Eles são o livro que tem de ser lido e não as hipóteses ou teorias que se façam deles.

As palavras têm o seu limite e os livros são um dos primeiros passos importantes para compreender como podemos viver em sintonia simpatia com o reino animal; como podemos compreender as linguagens das criaturas que apelidamos de “……”.

O segundo passo é esquecer os livros e viver com inteligência.

A gentileza, o carinho, para com o reino animal é o primeiro princípio no crescimento da verdadeira filantropia. 

Eu diria no crescimento do verdadeiro ser humano. Crescimento contínuo até ao dia do defunto.

Sim porque a aprendizagem não termina quando se completa a escolaridade obrigatória, é para a vida.

Atravessar um rio para salvar um cão, aconchegar um pássaro caído do seu ninho, pequenos actos que revelam a natureza  humana. Nem sequer é necessário ser-se muito letrado para agir desta maneira. Pelo contrário, tenho visto muitos letrados que são autênticos zombies no que respeita ao agir.

Quem escuta a voz dos animais em pura consciência está predestinado a trabalhar no mundo e para o mundo. 

Os animais são criaturas de sentimento rápido e linguagem simples, não vivem na órbita do jogo lógico, do bem e do mal, da apreensão, da antecipação.

Mas o simples não é assim tão simples e aquilo que é complexo podemos por vezes definir e até medir, veja-se os conceitos da Física, mas aquilo que é simples nem sempre o conseguimos perceber e medir. Simplesmente é.

Um exemplo é essa história do electrão ser ao mesmo tempo uma partícula e uma onda, um objecto definido e ao mesmo tempo indefinido.

Como podemos definir o que é simples? 

Não é de estranhar que a mais bela pintura, a mais bela teoria matemática, a mais bela teoria da física, da química seja a mais simples e elegante solução. A solução brota dum sentimento de beleza e nobreza.

A beleza ocupa todo o espaço, toda a forma. É o mais natural.

A beleza é aquilo que intrinsecamente procuramos e almejamos, e com ela a harmonia, a ordem, o prazer sem causa, o gozo de sentir simplesmente a vida que corre nas nossas veias, independente da causa. Vida pela vida.

Esta é a história da Maria, uma cadela pastora alemã agora feliz e que talvez o tenha sido sempre.

pintura de Mohammad-Ali-Taraghijah



Eight years have passed since Maria entered our life.

This book is an attempt to tell what we have been living and learning with Maria over the years.
Certainly the reader will find common places, stereotypes when reading but stereotypes sometimes contain hidden truths, truths that mechanical repetition sometimes hides.

There are truths out there full of colors like a garden of flowers, full of aromas.

Memory is incomplete as we know it very well, it tends to complete the empty spaces, to recreate situations, sensations, emotions.

Reporting on the experiences we had with Maria over these eight years will be a challenge.

The animal kingdom needs witnesses, stubborn and persistent people who want to give voice to those who have no voice. Act not only for them, but for us as well, because it seems that we need them more than the other way around.

More than a romantic feeling implied here, in our case it has become a daily truth. It is delightful to learn from Maria and with an open heart and mind to see the depth of ourselves and discover what it means to be human.

One gets the feeling that we human beings have lost something throughout our history, mainly the contact with Nature, with that unfathomable and deep electric, dynamic, pulsating and serene side of life. No idea, no belief replaces this wild and creative side of us. It is ours to reclaim, to live.

Those who have no voice are everywhere and thankfully they exist because they are the mirror of our human condition, they are the ones who make us stop.

Or, for those who question everything. Love sees, love questions, love is not passive, it is active. Love is never satisfied, it is creative.

Those who have no voice are Nature as a whole. Nature is more intense and true than any idea that a human has had. Why? Because the whole economy, all politics, everything we know derives directly or indirectly from it.

The design of a new car inspired by an insect or velcro inspired by the way another insect clings to things, pharmaceutical products and so on.

Without Nature there is no human culture.

Life without animals would certainly be dull. Tedious! Without plants too.
To imagine the planet earth without flowers and trees for me is a tragedy, an aberration.

Sometimes it hurts me more to see a tree cut down than a deceased animal, I feel that way without giving too much importance to a flower or an animal or even to my feelings.

It is so easy to cut down a tree because she apparently does not shout, does not express this violence that is the dismemberment of a branch. She does not shed red blood and she does not have two round eyes.

Good has never and will never asked the good and will never ask the evil to act accordingly, to do what is right. Good is independent of evil, it does not depend on it to create and to express itself.

It is necessary to go beyond this duality of good / evil. There is the good!

In everything, what has to be done has to be done well, with alertness, openness, there is intelligence and sensitivity in this. To act without expecting anything in return, to act without expecting praise, without expecting criticism, without expecting acceptance. To act like this is to act in freedom and this is the good, this is creativity, our origin.

Animals have the natural gift of awakening the good that exists within us wich is sometimes forgotten or asleep.
This story depicts the entire animal kingdom and not just the kingdom of a dog named Maria.

She behaves like a diva and a diva has her kingdom thats true.
She deserves all the best for what she went through.

I reiterate that when I mentioned the animal kingdom I was also including that other kingdom, that of the human, because we are animals too. It is good if not mandatory, that we do not forget this.

The line that separates the human rationale and its tasks and the apparent animal irrationality is a very thin line.
Our species as we know it behaves irrationally. Wars, hunger, envy, fear, anger, sadness, the thousand faces of human contradiction that we insist on not understand or see, let alone transcend.

Without seeing or facing this true we can spend a lifetime avoiding our real problems. And our real nature behind them.

Who is more irrational, a dog that knows when to be quiet and rest, breathe, relax, to just be or the busy human who seems to do nothing more than invent occupations to entertain the irrationality of his fear and insecurity?

Is it not unreasonable to say that we like animals and then treat them like… I don’t know … a garbage bag?

But problems are wake up calls, it is the way how intelligence shows us how to act and it is life telling us that there is something wrong and to act upon it.

Problems are circumstances to be defined and resolved. They are not tragedies.

It takes courage and detachment to be with a problem and learn from it. They are the book to be read and not the hypotheses or theories that come out of them.

In the end there are no problems, only learning.

Words have their limits and books are one of the first important steps to understand how we can live in harmony with the animal kingdom; how can we understand the languages ​​of the creatures we call “……”.

The second step is to forget books and live with intelligence.
Kindness, affection towards the animal kingdom is the first principle in the growth of true philanthropy. Of love.

I would say in the growth of a true human being. Continuous growth until the day we are gone to become cosmic dust.

Yes, learning does not end when school education is completed, it is for life.

Crossing a river to save a dog, snuggling a bird that has fallen from its nest, small acts that reveal our human nature. It is not even necessary to be very literate to act in this way. On the contrary, I have seen many scholars who are authentic zombies when it comes to acting. When it comes to love.

Whoever listens to the voice of animals in pure consciousness is predestined to work in the world and for the world.

Animals are creatures of quick feeling and simple language, they do not live in the orbit of the logical game, of good and evil, of apprehension, of anticipation.

But the simple is not that simple and that what is complex we can sometimes define and even measure, just see the concepts in Physics. What is simple is not always able to be measured. It just is, without measure.

An example is story of the electron being both a particle and a wave, a defined thing and at the same time an indefinite object.
How can we define what is simple?

It is not surprising that the most beautiful painting, the most beautiful mathematical theory, the most beautiful theory of physics or of chemistry is the most simple and elegant solution.

Every solution stems from a feeling of beauty and nobility.

Beauty occupies this entire space, the world. It is natural.
Beauty is what we intrinsically seek and aspire to. With it harmony, order, a pleasure without a cause, the enjoyment of simply feeling the life that runs through our veins regardless of the cause. Life for life.

This is the story of Maria, a German shepherd dog now happy… probably she always have been more than happy.

painting of Mohammad-Ali-Taraghijah

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