7. Diário: nada é assim tão fácil / Diary: nothing is that easy

Algures em Setembro de 2012

É por isso que a vida é tão estimulante. 

Se tomamos tudo como garantido, nesse momento podemos perguntar-nos se estamos realmente vivos. 

Se tomamos as coisas como fáceis, descuidamos. 

Se tomamos as coisas como fáceis, facilitamos. 

Se tomamos as coisas como fáceis, para além da inércia de agir, há um acomodar, um aceitar as coisas como são e como deviam ser, como se a própria vida fosse assim.

A vida puxa, estica, transborda os limites. 

Embora exista ordem, na natureza não existe o cruzar de braços e desistir, o acomodar. 

Para mim tudo na natureza é explosivo. 

É o pequeno cogumelo que irrompe lentamente pelo alcatrão feito pelo Homem. É a gota de água de repetidamente vai corroendo a pedra granítica. 

É só ler o livro.

O que contei ao telefone naquela tarde devia soar muito estranho, impossível.  A pessoa com quem falava representava uma associação de protecção animal que angariava fundos para pessoas com dificuldades económicas e que tinham animais.

Pouca gente na realidade compreendia a nossa decisão e senti o mesmo quando falava ao telefone com essa pessoa.

Senti que estávamos sozinhos. 

Não sei. Senti que nós como seres humanos passamos a vida a especular, a querer convencermo-nos fazer algo diferente ou honesto e quando o momento surge escondemo-nos. Talvez tenha sido rígido na avaliação mas tinha urgência de agir e decidir.

Eu ia vendo esta tendência em mim e sendo um humano não seria difícil imaginar que estaria sozinho neste comportamento.

É como se a maior parte do tempo vivesse na imaginação, na vontade e desejo de ser em vez de simplesmente ser.

A Maria estava na nossa garagem. 

E nós ao telefone a tentar perceber o que fazer, a tentar fazer contactos com hospitais veterinários, clinicas, associações de ajuda animal, mundos e fundos. 

Tínhamos urgência em agir, uma grande urgência pois cada minuto sem o diagnóstico e tratamento adequado poderia ter consequências futuras.

Os contactos de pouco serviram. Era tudo demasiado lento, burocrático. Parece que a rotina do dia a dia a que somos acometidos torna-nos insensíveis, incapazes de agir no imediato ou sequer sentir empatia no imediato, sem ter a necessidade de preencher um papel ou ter de pedir autorização ao nosso suposto superior para agir. 

Parece que há medo de agir ou medo de errar. 

Não tivemos muita sorte com os contactos que fizemos pelo telefone na verdade. Éramos uma ilha no meio do nada.

E a Maria descontraída, alheada do mundo humano e dos seus afazeres. Não havia urgência nela, nenhuma manifestação, como se para ela estar viva ou morta não fizesse diferença. Parecia que existia algo digno nisso. 

Estar a comparar-me com um animal parece ingénuo.

Se qualquer acção que ocorra no dia a dia estiver imbuída daquele estado de relaxamento que ela emanava, que ao agir para resolver qualquer problema desde e para um estado de tranquilidade, parece sugerir que  estamos mais abertos às soluções e que até podemos ser mais criativos. 

A parte material deste processo: os orçamentos que para nós eram impossíveis de cumprir.

Escutar algo como “Cerca de 4000 euros” aqui e ali, olhar para o bolso, ver pouco ou nada, olhar para baixo e ver um animal a precisar urgentemente de ajuda, falar com associações animais e nada também… de estarmos completamente dispostos a fazer tudo e mais alguma coisa para dar qualidade de vida à Maria e ter de desistir disso só porque a merda desse papel que já foi árvore e que já respirou e transformou dióxido de carbono em oxigénio para que eu pudesse viver e que em tom grosseiro se chama dinheiro, era a coisa que mais fazia abanar com a minha estrutura óssea, muscular, nervosa, emocional, glandular.

Não o aceitava. Não aceitava não agir só porque não tínhamos o capital, como dizem os entendidos, para investir. Não aceitava que me dissessem:

– “É só um cão!” 

– Não é só um cão! É a p**** da vida! 

Há quem precise de business angels para materializar uma ideia de negócio, nós precisávamos de todos os angels para materializar bem estar para a Maria. 

Foi então que nos lembramos dos hospitais veterinários universitários. Tínhamos ouvido falar que poderiam ser mais gentis neste investir de capital. 

Uso a palavra capital em tom irónico e sarcástico entenda-se, pois a linguagem que se usa nas lides económicas e financeiras está a milhas de relacionar-se com a própria vida.

Depois de contactarmos clínicas e hospitais, os que estavam perto das redondezas e as nossas redondezas significava toda a zona norte do país, decidimos por fim escolher o hospital veterinário da universidade de Trás-os-Montes porque nos pareceu a escolha certa. 

Pareceu-nos a escolha certa por uma simples razão: porque apreciamos a forma profissional, atenciosa e genuinamente interessada de como fomos atendidos ao telefone. 

Dar um pseudo-diagnóstico pelo telefone com a pouca informação que nos  tinha sido transmitida na clínica anterior, é, assim de simples, o mesmo que estar a falar para o vazio. Mas o vazio por vezes funciona. 

E há quem diga que um centímetro cúbico de vazio poderia fazer ferver toda a água que existe no mar deste planeta, imagine-se. Nós ferviamos por outras razões. 

Por termos percebido que pouca gente dava atenção ao nosso caso, como se fosse uma coisa banal, talvez por ser bizarra, inusitada ou por ser fruto de algum sonho mal digerido após uma refeição mais ou menos calórica durante o jantar ou logo após um pesadelo.

Algumas coisas foram-se revelando. 

A boa vontade das associações de animais que trabalham no limite do decente e que parecem funcionar mais pela boa vontade das pessoas, de trabalho voluntário, altruísta. 

Mas esta boa vontade não passa disso, funciona dentro dos seus limites ou não funciona, ou pelo menos não funciona convenientemente pois de repente a associação que nos poderia ajudar simplesmente deixou de atender os nossos contactos, simplesmente fomos ignorados.

Nem sequer tivemos tempo para reagir a bem ou a mal, de sentir pesar porque no fundo, nem sequer havia tempo reagir negativamente, era o que era e o que era apontava para outro caminho, para outra direcção. 

Não havia tempo para lamentar fosse o que fosse, havia sim que agir, mesmo que não fizéssemos ideia do que viria a seguir. Este parece ser o ritmo natural da vida. 

Perder tempo a pensar ou a reflectir sobre a inoperância de certas instituições, de como ficam enredadas na sua burocracia, no seu caos operativo, era simplesmente algo a que não queríamos dedicar um só neurónio sequer, o que não significava ignorar a inconveniência. 

Nada é perfeito nesta vida, é um cliché bem mais do que factual. É a pura das verdades. 

Provavelmente o mundo animal detém desta capacidade de ver as coisas directamente como são, sem filtro e agir em concordância com o que o momento dita. 

Esta atitude requer um espírito de abertura constante, um espírito de receptividade, se calhar de inocência.

Não existem dois momentos iguais o que por si significa que não há duas soluções iguais para um mesmo problema. 

No mundo animal há o fazer, são desprendidos, ageis, libertos, simples mas não estúpidos, inteligentes e nada emotivos, são claros e objectivos. 

Lembra-me uma história do budismo zen… “quando como simplesmente como, quando durmo simplesmente durmo”. A vida vivida de momento a momento sem o passado a interferir, a ditar reacções, justificações.

No mundo animal faz-se o impossivel. 

No mundo humano faz-se o possivel.

E o possível está repleto de artifícios e todo o tipo de jogos, de compensações e recompensas.

No impossível há o saborear do desconhecido e a inteligência que ele traz consigo, a pura intensidade de estar vivo e observar e ver a vida a acontecer. Sem os ideais que esbarram contra as oportunidades. Os ideais não compensam nem criam o espírito da liberdade. Apenas bloqueiam-no. 

Por alguma razão fomos atrás do que não sabíamos. Intuição? Instinto? Afinal ainda somos animais…



Sometime around September 2012

That’s why life is so exciting.

If we take everything for granted, then we can ask ourselves if we are really alive.

If we take things easy, we neglect.

If we take things easy, we facilitate.

If we take things as easy beyond the inertia to act there is an accommodation, an acceptance of things as they are and as they should be, as if life itself were like that.

Life pulls, stretches, overflows limits.

Although there is order, in nature there is no giving up or accommodating.

For me everything in nature is explosive.

It is the small mushroom that bursts slowly from the man-made tar. It is the drop of water that repeatedly corrodes the granitic stone.

We just need to read the book.

What I said on the phone that afternoon must have sounded very strange, impossible. The person to whom I spoke to represented an animal protection organization that raised funds for people with economic difficulties and who had animals.

Few people actually understood our decision and I felt the same when I spoke to this person on the phone. I felt that we were alone.

I don’t know…. I felt that we as human beings spend our lives speculating, wanting to convince ourselves to do something different or honest and when the moment comes we hide. Maybe i was being too rigid, the moment was urgent.

I was seeing this trend in me and being a human it would not be difficult to imagine that I was not alone in this behavior.

It is as if most of the time I lived in imagination, in wishful thinking, in the desire to be instead of simply being.

Maria was in our garage.

And we on the phone trying to figure out what to do, trying to make contact with veterinary hospitals, clinics, animal aid organizations and so on.

We had an urgent need to act, a great urgency because every minute without proper diagnosis and treatment could have future consequences.

The contacts were of little use. It was all too slow, bureaucratic. 

I guess the day-to-day routine that we are involved everyday makes us insensitive, unable to act immediately or to even empathize immediately, without having to fill out some paper and sign it or having to ask permission from our supposed superior to act. 

There seems to be a fear of acting or a fear of making mistakes. 

We were not very lucky with the contacts we made in fact. We were an island in the middle of nowhere.

The relaxed Maria was unaware of the human world and her chores. 

There was no urgency in her, no demonstration of fear, as if being alive or dead made no difference for her. There was something dignifying about it.

Comparing myself to an animal seems naive.

If any action that occurs on our daily living is imbued with that state of relaxation that she emanated, if we when acting to solve any problem from a state of relaxation to a state of tranquility probably we are more open to solutions and probably we can even be more creative.

The material part of this process was: the budgets we received that were impossible for us to meet. 

Listening to something like “About 4000 euros” here and there, then looking into your pocket and see little or nothing and then looking down and see an animal in dire need of help, to talk with animal organizations and nothing seemed  to happen… and you feeling completely willing to do everything and anything to give Maria a quality of life and thinking about giving it up just because of that paper that once was a tree that already breathed and turned carbon dioxide into oxygen so that I could live and that in a crude tone is called money, was the thing that shake my bone, my muscular, nervous, emotional, glandular structure.

I didn’t accept it. I did not accept not to act just because we did not have the capital, as the experts say, to invest. I didn’t accept being told:

– “It’s just a dog!”

– “It’s not just a dog! It’s the fucking life!

There are those who need business angels to materialize a business idea, we needed all angels to materialize well being for Maria.

It was then that we remembered university veterinary hospitals. We had heard that they could be kinder in this capital investment.

I use the word capital in an ironic and sarcastic tone because the language used in economic and financial affairs is miles away from relating to life itself.

After contacting clinics and hospitals, at least those that were close to our surroundings and our surroundings meant the entire northern part of the country, we finally decided to choose the veterinary hospital of the university of Trás-os-Montes because it seemed the right choice.

It seemed like the right choice for a simple reason: because we appreciated the professional, caring and genuinely interested way in which we were answered on the phone.

Giving a pseudo-diagnosis over the phone with the little information that had been transmitted to us at the previous clinic, is like, as simple as that, talking to the void. But the void sometimes works.

And there are those who say that a cubic centimeter of emptiness could make all the water that exists in the sea of ​​this planet boil, can you imagine?

We boiled for other reasons.

Because we noticed that few people paid attention to our case, as if it were a trivial thing, perhaps because it was bizarre, unusual or because it was the result of a badly digested dream after a more or less caloric meal during dinner or just after a nightmare.

Some things became clear to me.

The goodwill of animal organizations that work at the limit of the decent and that seem to work more from the heart of  the goodwill of people, of voluntary and altruistic work.

But this goodwill is not enough, it works within its limits or at least it does not work properly because suddenly the organization that could help us and said so simply stopped attending to our contacts, we were simply ignored.

That’s life. No hard feelings.

We did not even have time to react for the good or bad or to feel grief because deep down there was not even time to react negatively, it was what it was and what it was it was pointing in another direction.

There was no time to regret anything, it was necessary to act, even if we had no idea what was coming next. This seems to be the natural rhythm of life.

Wasting time thinking or reflecting on the inoperability of certain institutions, how they get caught up in their bureaucracy, in their operative chaos, was simply something we didn’t want to dedicate a single neuron to, which did not mean ignoring the inconvenience.

Nothing is perfect in this life, it is a cliché much more than factual. It is the pure of truths.

The animal world probably has this ability to see things directly as they are without a filter and to act in accordance with what the moment dictates.

This attitude requires a spirit of constant openness, a spirit of receptivity perhaps innocence.

No two moments are the same, which in itself means that no two solutions are the same for the same problem.

In the animal world there is the doing, they are detached, active, free, simple but not stupid, intelligent and not emotional, they are clear and objective.

It reminds me of a story of Zen Buddhism… “when I eat I simply eat, when I sleep I simply sleep”. Life from moment to moment without the past interfering.

In the animal world the impossible is done.

In the human world we do the possible and the possible is full of artifice sometimes and with all kinds of games, compensations and rewards.

In the impossible there is the taste of the unknown and the intelligence it brings with it, the sheer intensity of being alive and watching and seeing life happening. No ideals compensate for this feeling of freedom, ideals only come up against opportunities, they block.

For some reason we went after what we didn’t know. 

Intuition? Instinct? After all we are still animals…