8. Diário: quietude / Diary: stillness

Algures em Setembro de 2012

A luz pouco penetrava aquele local sólido e húmido. Escutava o vento lá fora e o canto das árvores denunciava a sua presença. Aqueles olhos, curtos, intensos, naturais, olhavam-me. E eu olhava-os. 

O corpo levanta-se ou tenta levantar-se e parece indiferente ao facto de não o conseguir, ou, pelo menos, não expressa indiferença. Levanta. Cai. Levanta. Cai. Sincopadamente.

Não sei se hei-de sentir pena, compaixão, ou admiração por este animal. Talvez um pouco de tudo isso e muito mais, ainda que fique e me sinta sem palavras. 

Sem palavras parece ser o estado natural da vida.

Vale o momento e as palavras são poucas para o descrever, talvez sejam até mudas, sem significado.. 

Porque dei e dou tanto valor às palavras? 

Porque dei  e dou tanto valor ao símbolo, ao verbal, à língua? A significados?

Existirá um outro modo de viver além das palavras, além do que possa chamar ou denominar de minha cultura, minha educação, minha sociedade?

A primeira resposta, honesta, parece-me ser… não sei.

Por não saber, não quer dizer que não exista.

Pelo contrário. É como um fogo lento que arde, iluminando ainda que na penumbra, o caminho que se vai fazendo e que se vai testemunhando.

Caminhar é um bom exercício físico, espiritual até.

Porquê? Vai-se devagar. Simplesmente. 

A paisagem move-se devagar. Simplesmente.

Observando com cuidado, atentamente, o próprio corpo, os sinais que chegam ao próprio corpo, os sons, os diferentes sons, uns mais altos outros mais baixos, a luz, as cores, umas mais intensas outras menos intensas, e o peso do corpo que varia entre um movimento pendular e constante como que estático e de equilíbrio em movimento.

Toda esta informação chega ao corpo a cada momento, invade-o elecromagneticamente.

O pensamento não consegue apreender toda essa intensidade, toda esta variedade. É demasiado lento. 

O pensamento reverte para silêncio. O seu lugar natural.

Dou por mim a tecer considerações sobre o que é belo ou não, sobre o que mais me estimula ou não, sobre o que prefiro ou não. De imediato fico preso num jogo sem fim.

O intelecto tem o seu lugar. Mas é um lugar pequeno. 

Há algo de majestoso em observar apenas e só o mar. 

As ondas que vêm e que vão, os remoinhos, os salpicos da água, as danças e complexidade da água. Ver apenas. 

Por momentos o pensamento e com ele as emoções derivadas do bem e do mal, suspendem-se. 

Existe aquilo ali diante do corpo, todos os sentidos alerta, disponíveis, receptivos. O tempo parece parar.

Existe silêncio, não um silêncio apático ou tecnificado ou metódico, não induzido pela vontade de estar quieto. É sem vontade. Aberto. Disponível. Frágil.

Método meditativo podem ser compulsões, desregulações ao que é natural.. Parece existir algo de espontâneo neste silêncio que ocorre por si mesmo.

O próprio pensamento a ocorrer, observa-se, não causa transtorno, é-se indiferente a ele, mas não se o ignora. 

Ele apenas está ali, vem e vai, como as ondas do mar, produzindo redemoinhos, entrelaçados, espuma. 

E desaparece sem identidade.

Ocorreu-me se este estado seria o estado natural da Maria.

A Maria deita-se, coloca uma pata no chão e nela segura-se, depois  coloca a sua cabeça e fica ali a fitar sabe-se lá o quê, sabe-se lá quem. Sem ojectivo a não ser o de estar viva.

Quão difícil parece ser simplesmente estar. 

Simplesmente ser, estar quieto.

A ocupação parece ser inimiga do bem estar. 

Dizer a alguém para não fazer nada e simplesmente estar quieto sem sequer pensar no que tem de fazer e ser, parece ir contra todo o fio de racionalidade. 

Fui educado, e creio de todos somos educados para perseguir, para seguir uma certa direção, somos educados para pensar, para perseguir um determinado objectivo, para conquistar à custa seja lá do que for. 

A procura da realidade ou de manifestar uma realidade, tira-nos do estado natural. No estado natural não há esforço. Como não há esforço para ouvir as ondas, ouvir os pássaros, ver as cores e os imensos verdes duma árvore, as imensas texturas duma flor e as texturas do canto dum pássaro.

Porque se perde a vida em busca duma ideia?

Quiçá não haja esforço por parte da Maria em absorver a sua dor física e em assimilar a sua presença. 

Está quieta e tendo a oportunidade age como fogo.

Por certo se estivesse sozinha, em pouco tempo morreria. Não seria tragédia alguma, apenas o normal ocorrer da vida. E o normal ocorrer da vida também a colocaria perante uma nova situação, com outras soluções e adaptações e outros desafios.

Baseado no pouco que sabíamos, colocamos a Maria numa determinada situação e o movimento da vida encaminhou-a, modificou-a, transformou-a. 

Este movimento é novo a cada segundo, fresco, humilde.

Sem arrependimentos, sem julgamentos, sem juízos de valor, a vida expressa-se sem que percebamos muito disso, sem que percebamos o como, onde, como e quando e porquê e para quem.

Existe esta quietude que parece ser o estado natural do nosso organismo e sendo o estado natural do nosso organismo, como pode ser adquirido?



Sometime around September 2012

Little light penetrated that solid, damp place. One could hear the wind outside and the song of the trees denounced his presence. Those eyes, short, intense, natural, looked at me. And I looked at them.

The body gets up or tries to get up and seems indifferent to the fact that it does not succeed or at least does not express indifference. Get up. Falls. Get up. Falls. Syncopal.

I don’t know if I feel pity, compassion or admiration for this animal. Maybe a little bit of all this and more, even though I feel speechless.

Without words seems to be the natural state of life.

THIS moment. Worth in itself. Words cannot describe the moment, words are even dumb, meaningless…

Why did I value and value words so much?

Why did I give and give so much value to the symbols, the verbal, the language? The constructed meanings?

Is there another way of living beyond words, beyond what I can call my culture, my education, my society?

The first answer, honestly, seems to be… I don’t know.

Because you don’t know, it doesn’t mean you don’t exist.

On the contrary. It is like a slow fire that burns, illuminating even in the dark the path that is being made and being witnessed.

Walking is a good physical exercise, even spiritual.

Why? Go slowly. Simply.

The landscape moves slowly. Simply.

Carefully observing the body itself, the signals that reach the body itself, the sounds, the different sounds, some higher and lower, the light, the colors, some more intense others less intense and the weight of the body which varies between a pendular and constant movement as if is was static and balanced in motion.

All this information reaches the body every moment, invades it electrically.

Thought cannot apprehend all this intensity, all this variety. It’s too slow.

The thought reverts to silence. A natural place.

I find myself making considerations about what is beautiful or not, thinking about what stimulates me most or not, about what I prefer or not. I realise I am immediately stuck in an endless game.

Intellect has its place. But it is a small place.

There is something majestic about observing only. Observing the sea.

The waves that come and go, the swirls, the splashes of water, the dances and complexity of the water. Seeing only.

For a moment thought and with it the emotions derived from good and evil are suspended.

There is that in front of the body, all the senses alert, available, receptive. Time seems to stop.

There is silence, not an apathetic or technical or methodical silence, not induced by desire to be quiet. 

It is unwilling. Open. Available. Fragile.

Meditative methods can be compulsions, deregulations to what is natural. There seems to be something spontaneous about this silence that occurs by itself. In itself.

The very thought that occurs it is observed and does not cause disturbance, one is indifferent to it, but one does not ignore it.

It is just there, it comes and goes, like waves of the sea, producing swirls, intertwined, foam. Moisture.

Then it disappears without identity.

It occurred to me whether this state was Maria’s natural state.

Maria lies down, puts a paw on the floor and holds onto it, then puts her head on and looks at who knows what, who knows who. No purpose but to be alive.

How difficult it seems to be. Just be.

Just be, be quiet.

Occupation seems to be the enemy of well-being.

Telling someone not to do anything and just be quiet without even thinking about what they have to do or be, seems to go against the grain of rationality.

I was educated and I believe we are all educated to pursue, to follow a certain direction, we are educated to think, to pursue a certain aim, to conquer, at whatever expense.

The search for reality or to manifest a reality takes us out of the natural state. In the natural state there is no effort. 

As there is no effort to hear the waves, hear the birds, see the colors and the immense greens of a tree, the immense textures of a flower and the textures of a bird’s song.

Why is life lost in search of an idea?

Perhaps there is no effort on the part of Maria to absorb her physical pain and assimilate her presence.

She is quiet. Having the opportunity she acts like fire.

Certainly if she were alone in that forest, she would soon die. It would not be a tragedy, just the normal occurrence of life. And the normal occurrence of life would also put her in a new situation with other solutions and adaptations and challenges.

Based on what little we knew, we put Maria in a certain situation and the movement of life guided her, modified her, transformed her.

This movement is new every second, fresh, humble.

Without regrets, without judgments life expresses itself without realizing it, without realizing how, where, how and when and why and for whom.

There is this stillness that seems to be the natural state of our organism and being the natural state of our organism, how can it be acquired?